“ROBERTO CARLOS”/1987 – UM DISCO CAPRICHADO, MAL COMPREENDIDO E INJUSTAMENTE PICHADO PELA CRÍTICA (REEDITADO)
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| Capa do álbum de 1987 Fonte: Site Oficial Roberto Carlos |
O 29º álbum de RC
LANÇAMENTO: 15 de dezembro de 1987
O 19º melhor álbum, em minha opinião
Lançado, como de praxe, às vésperas do Natal de 1987, o 29º LP de Roberto Carlos foi um dos mais vendidos do cantor* e o 2º mais vendido do ano**. Também foi um dos mais ignorados pelo grande público e um dos mais alvejados pela crítica. Até mesmo Paulo Cesar de Araújo, o biógrafo não autorizado - e censurado - pelo artista diz em seu livro “O Réu e o Rei – Minha História Com Roberto Carlos em Detalhes”, não haver nele ‘nenhuma grande canção'. Esse disco ficou marcado - não no biênio 87/88 nem por ter sido um grande sucesso - pela canção O Careta, mas negativamente quando três anos depois o desconhecido maestro Sebastião Braga ajuizou ação contra Roberto acusando-o de ser um plágio de sua baladinha Loucuras de Amor, originalmente composta por ele em 1982, mas registrada num compacto simples pela Polygram no ano seguinte.
Até então, a produção do maestro falecido subitamente em 2005, havia vendido 13 cópias, tocado uma (única) vez no rádio mais parecendo um jingle natalino de loja popular... Desde o início da batalha judicial, Roberto (e Erasmo, o coautor), perdeu em todas as instâncias e foi obrigado não só a pagar uma indenização de 4 milhões de reais a Sebastião, mas a incluir o nome do maestro e advogado como coautor da canção, publicando-a em jornal de grande circulação. Entretanto, após várias batalhas judiciais, Roberto acabou indenizando Sebastião em 200 mil reais por também ter ajuizado ação contra o maestro por danos morais. Em 2004, quando a Sony começou a relançar todos os discos do cantor em caixas de CDs, Roberto optou por proscrevê-la de seu repertório. Foi o lamentável fim de O Careta, uma grande canção que trazia um vigoroso solo de guitarra estilo hard-rock por Rogério Meanda e uma interpretação pujante que não se via em Roberto Carlos desde a sua emblemática fase soul (1968-1970).
| Capa interna do álbum Fonte: Hip Music |
Entretanto, a maior bola fora da crítica de então, foi não saber de antemão que Roberto Carlos não fez O Careta pensando em seus jovens colegas que viviam um dos clichês da badalada liberdade, ao lado do rock e do sexo. O cantor a fez como um recado direto e pessoal ao seu amigo e empresário João Flávio Lemos de Moraes, o qual foi dependente químico de cocaína e crack durante 26 anos. Claro, por extensão, a mensagem poderia alcançar outras pessoas envolvidas no mesmo problema. Mas o cantor não pensou exatamente em ser porta-voz dos bons costumes, como a crítica entendeu . É por isso que a letra diz em certo ponto “Talvez você ache uma droga essas coisas que eu falo/mas certas verdades nem sempre são fáceis de ouvir/não custa pensar no que eu digo/eu só quero ser seu amigo/mas pense no grande barato de ser um careta, careta, careta.../cara, quem afinal é você?/que está se acabando e não vê/que a vida oferece outras coisas...”
Em termos gerais, o álbum de 1987 era melhor e mais regular do que o de 1986 e superior em termos de diversidade temática ao de 1988.
O funk melody Tô Chutando Lata era outra que buscava uma linguagem mais informal a fim de rejuvenescer o cantor e, possivelmente atrair o público jovem com um romantismo mais despojado e coloquial. Acontece que a má vontade da crítica não viu assim. Houve quem opinasse que a expressão que dá título à faixa de abertura era já ultrapassada, nada original, um mero clichê. Críticos como Carlos Calado, da Folha de São Paulo, viam um paradoxo estético entre os versos mais informais e o 'mesmo tom choroso' das baladas que, segundo ele, esfriava o suingado arranjo (o que discordo absolutamente). Se Tô Chutando Lata não era exatamente um primor em termos de composição, estava longe de ser uma tragédia e quanto à interpretação de Roberto Carlos, sua acentuação vocal romântica é uma característica, uma peculiaridade nata e não um demérito.
Esse álbum foi o último lançado antes do cantor entrar numa fase bastante pessoal com o fim de seu casamento com Myrian Rios. O samba-canção Antigamente Era Assim parecia antecipar aquele momento em que Roberto cantou a sua dor por dois discos seguidos. É uma das melhores canções do álbum; uma gostosa dor-de-cotovelo de quem antevê o eventual fim de um relacionamento na mudança do outro. O ativismo ecológico veio acompanhado daquela vez por suas preocupações pelos direitos dos povos indígenas. A faixa Águia Dourada se encarregava disso. Na época, Roberto até declarou cedê-la aos índios numa campanha nacional pelo reconhecimento e demarcação de limites de suas terras. Não seria uma das grandes canções que Paulo Cesar procurou e não achou no disco? Mas como sua veia mais romântica não poderia faltar, para o seu público mais tradicional Roberto gravou a balada Aventuras, dos irmãos Antonio e Mário Marcos, os quais desde 1972 não apareciam num disco do cantor. A temática emula aquela dependência afetivo-emocional que um tem pelo outro e tudo só tem sentido quando o reencontro acontece. Acho-a a segunda mais fraca do disco.
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| Contracapa Fonte: Vinil Records |
Porém isso não foi absoluto, pois recordo que tinha 14 para 15 anos, na época, e já fã do cantor desde os 3, vivia ouvindo um colega de turma da escola cantando Tô Chutando Lata e O Careta, muito provavelmente porque seus pais haviam comprado o mais recente LP que aquela altura era uma instituição nacional. Um detalhe importante em nosso caso é que mesmo adolescentes e curtindo o pop-rock como qualquer outro colegial de então, não fomos surdos ao que Roberto lançava em seus discos daquele período. Éramos, então, esse colega e eu, fãs ardorosos da Legião Urbana e de Renato Russo e, no caso dele, a pegada mais pop das canções citadas, chamou a sua atenção.
Gosto muito das faixas Menina (mais ousada e sensual), com seu solo meio blueseiro, e Ingênuo e Sonhador (mais romântica), uma canção bem light, bem classe A das FMs de antigamente. Canção do Sonho Bom vai quase na mesma levada; é quase um poema musicado. O então bolachão se encerra com Todo Mundo Está Falando, versão do próprio Roberto em parceria com Erasmo para o velho e bom cowntry Everybody's Talking composto por Fred Neil e gravado pelo americano Harry Nilsson, em 1966. Não ficou estupenda (na verdade é, para mim a mais fraca do disco) mas valeu pela intenção e pelo fato de Roberto quebrar o paradigma de desde 1979 encerrar seus discos com alguma balada ultrarromântica, ou de Eduardo Lages e Paulo Sérgio Valle (principalmente) ou de Maurício Duboc e Carlos Colla. Foi o último disco de alguma sonoridade mais pop do cantor, que terminado os anos 80 enveredou por uma trilha bastante popularesca em seus discos dos anos 90. Infelizmente, a crítica vigilante (ou militante) não quis atentar que se tratava de um disco primorosamente bem-produzido, bem gravado, mais despojado, não tão romântico como o anterior, gravado no Brasil, com músicos brasileiros – uma das cobranças da crítica –, até mixado aqui, menos orquestral, como falei e que RC quis fazer algo um pouco diferente sem deixar de ser Roberto Carlos. O resultado não foi sucesso de crítica, mas os 2 milhões e 300 mil cópias deixaram claro que o público aprovou, mesmo o 1° lote prensado tendo apresentado defeitos no processo de cópia, o qual fazia a agulha pular nas faixas Tô Chutando Lata e Águia Dourada.
CANÇÕES DE RC 1987
1- Tô Chutando Lata (Roberto Carlos-Erasmo Carlos) – Funk-melody
Arranjo: Nico Resende – Gravada em 26, 27/10 e 02/11/1987
2- Menina (Roberto Carlos-Erasmo Carlos) – Blues
Arranjo: Lincoln Olivetti – Gravada em 12/10/1987
3- Águia Dourada (Roberto Carlos-Erasmo Carlos) – Balada/Mensagem
Arranjo: Chiquinho de Moraes – Gravada em 23, 24/09/1987
4- Coisas do Coração (Eduardo Lages-Paulo Sérgio Valle) – Balada (maior sucesso do disco)
Arranjo: Eduardo Lages – Gravada em 29/07 e 18/09/1987
5- Canção do Sonho Bom (Mauro Motta-Robson Jorge-Lincoln Olivetti-Ronaldo Bastos) – Balada – Gravada em 20/08/1987
Arranjo: Lincoln Olivetti
Cobertura de cordas: Eduardo Lages
6- O Careta (Roberto Carlos-Erasmo Carlos) – Pop/Hard-rock
Arranjo: Charles Calello – Gravada em: não disponível
7- Antigamente Era Assim (Roberto Carlos-Erasmo Carlos) – Samba-canção
Arranjo: Nico Resende – Gravada em 28/09 e 07,11/10/1987
Arranjo de cordas: Eduardo Lages
8- Ingênuo e Sonhador (Maurício Duboc-Carlos) – Balada
Arranjo: Eduardo Lages – Gravada em 09,11/09/1987
9- Aventuras (Antonio Marcos-Mario Marcos) – Balada
Arranjo: Eduardo Lages – Gravada em 16,17/09/1987
10- Todo Mundo Está Falando/Everybody’s Talking (Fred Neil-Roberto Carlos-Erasmo Carlos) – Cowntry/Pop
Arranjo: Lincoln Olivetti – Gravada em 17/11/1987
Arranjo de cordas: Charles Calello
VENDAGEM: 1,5 milhão de cópias (1° tiragem); 2 milhões e 300 mil cópias (vendagem final)
– Produzido por Mauro Motta - Gravado nos estúdios SIGLA (Rio e São Paulo) e Lincoln Olivetti (Rio) - Mixado no estúdio SIGLA (Rio) - Fotos: Luiz Garrido
CURIOSIDADES:
- Este foi o terceiro LP seguido que RC gravou e mixou inteiramente no Brasil. No caso, o álbum de 1985 teve apenas uma canção e a mixagem realizada nos EUA.
- O maestro Chiquinho de Moraes voltou a aparecer no arranjo de uma canção deste disco ("Águia Dourada"), coisa que já vinha acontecendo fortuitamente desde o álbum de 1984. Chiquinho foi o maestro da orquestra e arranjador constante de RC de 1972 até 1975 quando resolveu deixar a parceria com o cantor.
- Este foi o primeiro álbum do cantor lançado também em CD
- A faixa Ingênuo e Sonhador foi a última canção composta em pareceria pela dupla Maurício Duboc e Carlos Colla, que desde 1971 cederam músicas a Roberto Carlos. Depois Duboc e Colla se separaram.
FONTES CONSULTADAS:
- Roberto Carlos em Detalhes. ARAÚJO, Paulo Cesar de. Editora Planeta, 2006. São Paulo.
- O Réu e o Rei – Minha História Com Roberto Carlos em Detalhes. ARAÚJO, Paulo Cesar de. Editora Companhia das Letras, 2014. São Paulo.
- Folha de São Paulo, Caderno Cotidiano, Cópia Arquivada,16 de março de 1996
- Best Salling, Albums, Year End 1987**
- Best Salling, Albums, Roberto Carlos by Roberto Carlos 1987 sales and awards/Roberto Carlos 1987 certifications and sales*
- Isto É Gente, Cópia Arquivada, 06 de dezembro de 1999
- Canal Aden Santos, You Tube. “Roberto Carlos 1987 – O Álbum Pop do Rei, Parte 2 https://www.youtube.com/watch?v=sCol5t9afXE&t=450s. Consultado em 19 e 21 de setembro de 2024.
- Isto é Gente, 26 de outubro de 2022
- Veja - O Som e a Fúria, 04 de junho de 2024
- O Globo, 19 de julho de 2024
- Folha de São Paulo, 09 de janeiro de 2018
- Planeta Rei, As 100 Músicas Mais Tocadas, Ano de 1987
- Querem Acabar Comigo - Da Jovem Guarda ao trono, a trajetória de Roberto Carlos na visão da crítica musical. GUEDES, Tito. Editora Máquina de Livros, 2021. Rio de Janeiro.


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