AS MUDANÇAS DE RC DE DÉCADA EM DÉCADA
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| O primeiro parceiro instrumental de RC foi o violão |
Além de completar 80 anos de vida no próximo 19 de abril, sua majestade o rei Roberto Carlos, também inteirará cinco décadas e meia de seu longevo reinado na música brasileira. Não há mais como negar que o artista mais popular de todos os tempos é também de longe o maior ícone pop já surgido na Terra Brasilis. Neste ensaio musicográfico, procuraremos abordar as mudanças verificadas em seus (agora) 62 anos de carreira. São muitos "Robertos" num artista só; são mudanças nem sempre perceptíveis e radicais em vários aspectos. Basicamente, RC construiu um estilo próprio e inconfundível cujas mudanças se deram não a partir de rupturas e redirecionamentos drásticos, mas transposições quase naturais de fases orientadas tanto - e principalmente - pelo seu amadurecimento pessoal, mas também musical. Abordaremos desde a forma de compor, a temática, passando por certos aspectos técnicos de suas gravações, os arranjos, até a sua interpretação, que perceptivelmente talvez seja uma das mudanças mais explícitas. Vamos lá!
O INTÉRPRETE:
Por possuir uma "voz pequena", sem grande extensão e sem os característicos arroubos operísticos que o rádio exigia, Roberto veio a se sintonizar numa tradição de intérpretes que teve como um de seus mais importantes pioneiros o cantor de samba e marchas carnavalescas, Mário Reis (*1907- +1981). Este cantor carioca é tão prestigiado nos meios historiográficos musicais que, para boa parte dos críticos, ele é o marco da transição entre a era das gravações mecânicas e a das gravações elétricas no Brasil. Na primeira, com uma indústria fonográfica ainda bastante incipiente no país, os recursos técnicos dos estúdios eram bastante precários, o que exigia dos cantores uma voz possante e que satisfizesse minimamente as limitações de microfones e outros aparatos que pudessem registrar a voz do artista. Com a implantação de multinacionais como a extinta Odeon Records* e seu investimento em tecnologia trazida de fora, implantou-se, por fim, a era das gravações elétricas as quais já não exigiriam que o artista se esgoelasse para ter sua obra gravada.
Mais tarde, num período pré-Bossa Nova, cantores considerados modernos como Lúcio Alves, Dick Farney e o grande ídolo de RC, Tito Madi, deram a tônica que romperia com a tradição dos vozeirões com vibrato. Nesta época, Roberto era apenas um ilustre desconhecido adolescente que migrara de Cachoeiro para Niterói, no antigo estado da Guanabara. Tentava justamente a sorte nas rádios do Rio de Janeiro, a então capital federal. Mas ele não teve qualquer chance porque ainda imperava naquele meio de comunicação o padrão de voz que o advento da Bossa Nova eclipsou. Sua grande escola, como admitido por ele mesmo, foi o seu emprego como crooner da fina boate Plaza, onde à exceção do rock, tinha de cantar de tudo.
Como se sabe, as primeiras gravações de RC, ainda tutelado pelo espírito marqueteiro de Carlos Imperial, foi na cadência da Bossa Nova e do moderno samba cool jazz. De "João e Maria", de 1959, ao compacto simples lançado em outubro de 1962, RC foi basicamente um intérprete. Buscava um estilo que pudesse abraçar rumo ao estrelato. Em seu primeiro compacto lançado pela Polydor, no entanto, ele exagerou no tributo a João Gilberto. Aconselhado pelo diretor artístico, Joel de Almeida, o menino RC acentuou ainda mais o timbre anasalado, o que dá para perceber claramente ao se escutar sua primeira gravação - que neste caso, foi "Fora do Tom", que acabou ficando no Lado B da bolachinha. "João e Maria", o Lado A, foi assinada por ele próprio em parceria com Imperial. É ainda uma tímida participação para quem se transformaria num dos grandes criadores da nossa música. Porém a preocupação de Roberto neste período do intérprete era assinar contrato com alguma gravadora e permanecer, maturar a sua carreira até acertar o alvo. Pode-se dizer que a grande empreitada dele naquele momento era realizar o seu sonho de ser "um cantor profissional", como cantaria em "Minha Tia", do álbum de 1976.
Em termos vocais, ele bem poderia ter se tornado - se não o rei da Bossa Nova - um de seus grandes representantes. Com sua voz afinada, divisão precisa, evidente talento tanto para interpretar quanto compor, ele poderia ter se inserido num dos expoentes de destaque do gênero. No entanto, a visão artística de Carlos Imperial para ele desde o início foi o estrelato, não em ele ser "mais um na multidão". Imperial queria ter sob sua tutela não uma estrela, mas a estrela. Essa reivindicação está presente na fanfarra marqueteira com que o apresentava desde "o Elvis Presley brasileiro" até a tentativa de torná-lo o discípulo mais fiel do papa da Bossa Nova. No calor dos acontecimentos e da repercussão do lançamento de "Chega de Saudade", Roberto sofreria naturalmente com a pecha de imitador barato e caricato. Foi uma forçação de barra que expôs o jovem cantor ao julgamento em ser apenas um bicão querendo pegar carona no êxito criado por outros. Isso durou efetivamente até o álbum "Louco Por Você", pois os sambas "Ser Bem" e "Se Você Gostou" ainda procuravam emular o samba cool jazz. Roberto acabou fracassando por atacado nas 12 faixas de seu 1º bolachão.
As primeiras composições, nasce enfim um artista autônomo e mais original
Se Ângela Maria só começou a se destacar quando saiu da sombra de Dalva de Oliveira, se o jovem Orlando Silva só trilhou o caminho do sucesso quando se desvinculou de Francisco Alves e até mesmo Elis Regina desistiu de ser a nova Celly Campello, RC também precisou emitir uma identidade própria e se apartar de vez da paixão artística por João Gilberto. Seu timbre de fato era parecido, seu fraseado não deixava a desejar para a proposta de um cantor moderno, mas a partir de seu 2º compacto simples já pela CBS, ou melhor, Colúmbia, em 1960, RC começou a se libertar do fantasma de João Gilberto. Seu canto soa menos forçadamente nasal em "Canção do Amor Nenhum", mas detalhe: em certas passagens, o cantor emposta a voz para fugir do seu nasalado peculiar. Roberto vai caminhando assim gradualmente para o seu canto natural, por isso nos dois sambas citados de "Louco Por Você", ele nos soa mais à vontade, mais solto. Depois desse terceiro fracasso comercial, Carlos Imperial e Roberto Corte Real desaparecem da vida de RC. Como dito por Paulo Cesar de Araújo, a missão de ambos estava cumprida; o segundo deixou a direção artística da CBS, o que simbolizou uma nova etapa na busca de RC pelo sucesso.
Tendo assumido a função de produtor da gravadora, o gerente-geral e diretor artístico Evandro Ribeiro pôs definitivamente fim à pretensão de RC em atingir o sucesso através da Bossa Nova. Foi assim que em abril de 1962 começa a surgir o RC que viria para ficar. Versão de Gilberto Rachel para "Run Around Sue", de Earnest Maresca e Dion Dimucci, o rockabilly "Fim de Amor" antecipava a seara da música jovem que coroaria RC alguns anos mais tarde. No Lado B do compacto estava o rock-balada "Malena", composição de Rossini Pinto e Fernando Costa que procurava navegar os mesmos mares do sucesso de "Diana" e "Oh, Carol". "Malena" alcançou razoável execução em rádios voltadas ao público jovem do Rio, mas sem chamar ainda a atenção do público geral. O mesmo basicamente se deu com o compacto que trazia "Susie" e "Triste e Abandonado". Composição de Hélio Justo e Erli Muniz, esta segunda era um rock-balada, gênero que ascendeu entre a ida de Elvis para o exército e o aparecimento dos Beatles. A primeira se trata nada mais, nada menos do que a primeira composição de RC, ainda sem a parceria com Erasmo. Embora não tenha sido um grande sucesso, percebe-se em "Susie" o frescor de juventude e a autenticidade que faltava a RC. A letra evoca coisas - se não reais na vida de jovens suburbanos como RC - idealizadas a partir da absorção da cultura pop via cinema: brotos, lambretas e indumentária extravagante. Toda essa revolução comportamental é motivada por uma só razão: a conquista da garota cujo nome dá título à canção. Não sem razão alguém já disse que RC foi o nosso "James Dean suburbano"; um James Dean doce e romântico. Em sua primeira composição, mesmo falando de idealizações juvenis, Roberto já deixa explícito o romantismo que o caracterizaria por toda a carreira. Nesse caso, sua veia romântica apenas recrudesceria com a idade avançando e com o seu amadurecimento pessoal. Portanto, o compacto simples lançado naquele outubro de 1962 tanto encerra a fase do intérprete como inaugura a do criador ou compositor.
Novas possibilidades interpretativas
A certidão de nascimento artística de RC foi emitida oficialmente em setembro de 1963. Na ocasião, o cantor despontou nas rádios cariocas voltadas ao público jovem com "Splish Splash", um rockabilly lançado nos EUA por Bobby Darin uns cinco anos antes. Quase ninguém conhecia essa canção por aqui. Seu amigo Erasmo Carlos usou a intuição para escrever uma letra em português para ela, já que não sabia inglês. Se o "splish splash" original era uma onomatopeia da água chocando-se com o chão, para Erasmo aquilo sugeriu-lhe um tapa desferido no escurinho do cinema. José Messias, conhecido radialista da época e autor das valsas "Oração de Um Triste", "Os Velhinhos", além do calypso "Minha História de Amor", gravadas mais tarde pelo cantor, era contrário à gravação de "Splish Splash" por considerá-la um tema já velho. No entanto, Roberto comprou a ideia do amigo e gravou, na sua própria opinião, "melhor que Bobby Darin". De fato, apesar de ter sido registrada em apenas 3 canais, a gravação transpira vitalidade juvenil desde a interpretação de RC. Desde que desistira da Bossa Nova e de sua interpretação intimista e comedida, ele veio mostrando uma faceta mais despojada e irreverente que ficou explícita nesse seu primeiro hit. A participação do Renato & Seus Blue Caps na faixa também contribuiu significativamente para transpirar o frescor que a canção precisava. O mesmo se daria com a 1ª composição da dupla Roberto e Erasmo e com a participação dos The Angles, "Parei Na Contramão". A irreverência a serviço do coração aliada ao tema da velocidade evocava os ideais de liberdade juvenil, de rompimento com os padrões de convenção do mundo adulto. Essas características deram notoriedade ao trabalho de RC junto à juventude.
Algo que o artista também conseguiu cooptar em seus primeiros álbuns foi a atenção do público infantil. Com temas como "Um Leão Está Solto Nas Ruas", "História de Um Homem Mau", "Noite de Terror", "Brucutu", "O Feio", "O Gênio" e "O Sósia", o cantor também foi o "rei dos baixinhos" antes de Xuxa e sequer a música infantil existirem no país. A maioria desse tipo de abordagem quase lúdica para os padrões de hoje não foi composta por Roberto e Erasmo. O alvo da dupla no início foi mesmo a juventude colegial, enquanto que nesta seara do rock os compositores que abasteciam o repertório de RC, principalmente Getúlio Cortes, focavam as crianças. Se não as focavam exatamente, o fato é que as mesmas se sentiam atraídas por aquelas temáticas estilo história em quadrinhos.
Enquanto isso, os "irmãos de fé e irmãos camaradas" iam dando uma identidade própria à música jovem produzida no Brasil. Nesta a identidade artística de RC como um romântico transgressor das convenções sociais vai se reforçando. Mesmo quando a temática diz respeito a uma briga entre duas gangues rivais, como em "Os Sete Cabeludos", a motivação é a disputa por uma garota chamada Lili. No mega-hit "Quero Que Vá Tudo Pro Inferno", que coroou RC o "Rei da Juventude", o praguejamento era por conta da saudade que o cantor sentia de sua então namorada, Magda Fonseca. Em nenhuma outra canção, entretanto, a imagem de playboy irreverente e paquerador de RC, no auge de seus 24 anos, é reforçada mais do que em "Lobo Mau" - mais uma "versão" do amigo Erasmo Carlos. Nesta época, o instrumento que o cantor se utilizava para começar a compor um tema era o violão. Isto durou todo o final da década de 1960 e alcançou toda a década seguinte, o que é explicitado pela contracapa do álbum de 1966 e pela capa de "O Inimitável", de 1968. Mas este álbum foi de fato o primeiro divisor de águas da carreira de RC. A partir dele, uma mudança mais significativa ocorreu nos rumos musicais do cantor e vale a pena falar mais especificamente sobre isso.
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| A capa de 1968: Roberto compondo ao violão |
Cada vez mais maduro, cada vez melhor e irresistível
O hoje vasto patrimônio musical de RC dificilmente teria se formado se ele insistisse num gênero cuja essência comercial teve data de validade. Não que o movimento Jovem Guarda tenha ficado como um fenômeno datado, mas a exploração e consequente esgotamento mercadológico, sim. Os acontecimentos políticos por volta de 1968, como o endurecimento do Regime Militar por meio do AI-5 e a ascensão do Tropicalismo, também contribuíram para o esvaziamento do mal intitulado "iê-iê-iê". Perspicazmente, Roberto pulou fora do barco antes que ele afundasse de vez. Ele teve tato artístico para desligar-se, como opinou o falecido Ronaldo Bôscoli, de um grupo musicalmente limitado e caso não o fizesse, aí sim, provavelmente teria se tornado um artista datado. Porém isso não ocorreu e o talento de RC fez o seu sucesso se expandir cada vez mais.
De fato e de direito, o primeiro álbum de significância musical do cantor, foi o de 1966, justamente o seguinte a ele ter se tornado um fenômeno de popularidade. Como acontece com quase todo artista, os primeiros recortes discográficos nem sempre refletem as suas ideias sobre o tipo de música que desejava e da forma que desejava gravar. De 1963 a 1965, Roberto até conseguiu às duras penas contar com as participações da rapaziada de bandas como os já citados The Angles (posteriormente, The Youngsters) e Renato & Seus Blue Caps, além do The Clevers (Os Incríveis) em algumas faixas de seus primeiros 5 álbuns. Para o fã mais observador e ouvido mais crítico, é nítida a diferença de sonoridade do álbum "Jovem Guarda", de 1965, para o intitulado simplesmente "Roberto Carlos", do ano seguinte. Neste, ele começou a ter mais autonomia na formatação de seu som. Permanecia evidentemente o indefectível órgão tocado por Laffayete, mas elementos sonoros como o violão ganhavam mais destaque e novidades como percussão e gaita acompanhavam par e passo o ar de modernidade que os Beatles davam ao rock lá fora. O LP DE 1966 é sensivelmente mais acústico que seus antecessores e constitui-se no primeiro registro sonoro consoante ao talento nato de RC.
Para o álbum que serviria de trilha ao seu primeiro longa-metragem "Roberto Carlos em Ritmo de Aventura", a sonoridade se fez ainda melhor. A começar da faixa de abertura "Eu Sou Terrível", que conta no arranjo com sax, trompete, gaita (tocada pelo próprio RC), além da base de metais e de órgão. Composta em junho de 1966 e endereçada à sua então nova namorada, Cleonice Rossi Martinelli, a Nice, "Como é Grande o Meu Amor Por Você" é hoje quase de domínio público e recebeu um solo de flauta por Jorge Ferreira da Silva, o Jorginho da Flauta, que concordando com Paulo Cesar de Araújo é um dos momentos mais lindos da música brasileira. Outro momento extraordinário do disco fica por conta de "E Por Isso Estou Aqui". É clássico o momento no filme em que Roberto pega o violão e pede um som de cravo ao tecladista Antonio Wanderley. Além do cravo, a canção traz um quarteto de cordas revestido de um belo arranjo barroco. Há espaço também para o psicodelismo na exuberante "Você Não Serve Pra Mim", composta por Renato Barros. Esta conta com um riff de guitarra com distorção fuzz, que revela influências de bandas como Cream e Yarbirds, segundo ainda Araújo. Esta 3ª faixa do antigo Lado B do LP, ainda traz Laffayete solando um órgão pré-psicodélico que dava ao rock um ar indelével de modernidade e vanguardismo. Mas a fase seguinte, a fase soul, a que RC entraria depois de sofrer a sua metamorfose, antecipa-se na gravação de outro grande hit, "Quando". Cantada a plenos pulmões, a canção trazia uma bateria com levada funk, baixo swingado e metais que denotam o rumo da black music que a carreira do cantor começava a tomar.
Mas se isso era apenas uma prévia de sua fase soul, "O Inimitável", lançado em dezembro de 1968, mergulhava-o de vez na black music. Primoroso, este 8º álbum lhe serviria de transição à sua definitiva fase romântica. Como observado por Paulo Cesar de Araújo, antes desse álbum toda faixa de abertura de seus discos era um rock. Em "O Inimitável", o lirismo que o caracterizaria já dá às caras em "E Não Vou Mais Deixar Você Tão Só", do colega e companheiro de geração, Antonio Marcos. Além dos metais, baixo caracteristicamente soul e bateria nevrálgica, Roberto a interpreta de forma despojada, explorando seus agudos sem decoro - o que não era padrão numa temática romântica. E olha que a faixa de abertura seria "Eu Te Amo, Te Amo, Te Amo", um mega-hit cujos metais são mais pulsantes ainda. Porém a CBS a decidiu lançar um pouco antes num compacto simples junto a "Com Muito Amor e Carinho" (esta seria relançada em 1976 na coletânea "San Remo 1968"). Simplesmente uma das gravações mais espetaculares de RC, a 6ª faixa do Lado A do LP traz tudo que a black music tem direito: baixo swingado, os já referidos metais ensurdecedores, trombone, trompete e um luxuoso coro tipicamente gospel. Nada mais pulsante e irreverente, porém, do que "Se Você Pensa". A temática de insubmissão do eu lírico no relacionamento vai completamente na contramão do lirismo dor-de-cotovelo, de fossa e desvalorização do "eu" comum das canções românticas. Muitos quiseram até ver uma mensagem cifrada nos versos "Se você pensa que vai fazer de mim" e "Daqui pra frente/tudo vai ser diferente/você vai aprender a ser gente/seu orgulho não vale nada, nada..." numa referência velada ao contexto político de então. Mas Roberto jamais pretendeu isso e tudo não passava de intertextualidades típicas mais de um desejo do que de um fato. E assim Roberto foi mergulhando na soul music e o contato com o velho companheiro de The Sputniks, Tim Maia - o futuro rei do soul brasileiro - credenciou-lhe ainda mais naquela fase transitória. Para o álbum de 1969, além de pérolas como "Nada Vai Me Convencer" e "As Curvas da Estrada de Santos", Roberto gravou de Tim o funk "Não Vou Ficar". O epílogo dos discos do cantor com a sonoridade soul se daria em seu 10º álbum, lançado em 1970. "Ana", "Uma Palavra Amiga", "O Astronauta", "Se Eu Pudesse Voltar No Tempo" e "Jesus Cristo" davam o tom black power do desfecho dessa fase. Porém como toda transição de RC, isso não significou o fim definitivo do soul em sua obra, pois os álbuns de 1971 (principalmente), 1972, 1973 e até o de 1976 ainda trariam resquícios da black music em seu som. Da mesma forma como o álbum de 1963 ainda trouxe uma bossa nova, "É Preciso Ser Assim", o próprio álbum de 1969 ainda trouxe uma balada romântica estilo Jovem Guarda, "Não Adianta", pois, como já dito, as mudanças do artista foram graduais e não radicais. Entretanto, o álbum de 1971 é de fato o marco para a sua definitiva fase romântica.
O poeta do terninho e do cravinho
Sem sombra dúvidas, "Detalhes" introduz RC ao definitivo universo da música romântica. À esta altura é importante algumas observações a respeito deste RC, já que o nosso intuito é falar de suas mudanças. Alguns por uma exigência estética mais vanguardista, opinam que Roberto foi caminhando justamente da vanguarda para o cafona, da originalidade e do experimentalismo para a redundância, da irresistibilidade para a chatice. Tudo bem, é uma questão de cosmovisão. Fato é que ele continuou cada vez mais seduzindo multidões, consolidando a carreira mais longeva e exitosa da música brasileira. Mas o que teria levado RC ao universo da música romântica? Uma resposta simplista seria o fato dele sempre ter sido romântico em qualquer fase de sua carreira, o que seria um desaguar natural. Muitos falam de sua vitória em San Remo com "Canzone Per Te", outros falam do seu casamento com Nice no mesmo ano ou ambos os fatos. Uma terceira via de opinião teria sido a sua primeira apresentação no Canecão em 1970, com grande orquestra sob a regência de Chiquinho de Morais. Talvez esses fatos tenham somado, mas para mim realmente o grande motivo foi a sua maturação pessoal. De repente, mesmo depois de casado, Roberto poderia, rico, bem-sucedido e super cotado com as mulheres, continuar levando uma vida boêmia e transgressora quanto aos costumes e as conveniências sociais. Mas em termos de personalidade ele nunca foi um Tim Maia da vida. Então casado e com família, os "brotos" (no plural) que motivavam a transgressão do coração já não faziam sentido. Ele assimilou a vida de casado e com família como era o normal ou o conveniente de ser. Isso, contudo, não significa dizer que ele não teve de renunciar às tentações, como parece dizer em "Ilegal, Imoral ou Engorda".
Contudo, o assomar de sua fase romântica não foi assim acompanhada por uma mudança imediata em seus usos e costumes. Ao longo do período de lançamento de seus cinco primeiros álbuns na fase romântica, ele continuou vestindo-se como um hippie: jaquetas de couro sem manga e desfiadas na cintura, calças boca-de-sino, sapatos cavalos-de-aço, os mesmos anéis e colares de contas da época da JG e, logicamente, os cabelos encaracolados e volumosos no estilo Black Power. Esta indumentária despojada e jovial ia na contramão do teor romântico de canções que exploravam o amor e o sexo no contexto do casamento ("Amada Amante", "Quando As Crianças Saírem de Férias"), o amor não correspondido ("De Tanto Amor", "Você Já Me Esqueceu"), além evidentemente da evocação religiosa ("Todos Estão Surdos", "O Homem") e da autobiografia ("Traumas" e "O Divã"). Caso mais específico do paradoxo entre o seu conservadorismo temático e a sua imagem pessoal é a canção "A Janela..." que abre o seu álbum de 1972. Em pleno contexto do movimento hippie, dos jovens saindo de casa para levar uma vida alternativa, Roberto dá o seu recado dizendo "Quantas vezes eu pensei sair de casa/mas eu desisti/pois, eu sei lá fora eu não teria/o que eu tenho agora aqui..."
A partir de 1976 isso mudou. O cantor assumiu de vez o seu romantismo também em sua indumentária. Basta ver a linda capa e contracapa do álbum daquele ano nas quais posa com paletó, calças e chapéu brancos e um cravo vermelho na lapela. Na também belíssima capa interna, ele até posa com seu blusão de couro, óculos escuros, calças boca-de-sino e sapatos cavalos-de-aço; porém a excentricidade vai desaparecendo aos poucos.
Sendo assim, desde a segunda metade da década de 70, RC já é o atual RC que todos conhecemos. Mas e na virada para a década seguinte, a de 1980, o que mudou ou não mudou no artista mais badalado do Brasil?
A reclusão pessoal e artística dos anos 1980
RC foi intenso em quase tudo de 1965 (quando se tornou o fenômeno de popularidade que é) até a citada primeira metade dos 70's. A meu ver, se há alguma crítica justa que se pode fazer a ele depois é que de fato pouco arriscou ou inovou musicalmente em seu trabalho. De certa forma ele ficou refém de seu próprio sucesso desde que nesse disco acima ele alcançou a tiragem de 1 milhão de cópias e aumentando-a a cada ano, tanto que a expectativa da então CBS era que na década de 80 ele atingisse a cifra de 3 milhões num disco. Sempre receoso de mudanças bruscas, Roberto firmou com seu imenso público a fiel parceria que fazia com que mais de 2 milhões de pessoas acorressem às lojas de disco, Natal a Natal, a comprar "o novo elepê de Roberto Carlos". Além logicamente de seu inquestionável talento, afinação, esmero na produção de seus discos e de seu carisma incomum, Roberto investiu na mesma fórmula líquida e certa que era a sua parte nesse pacto milionário.
De 1971 a 1975, como já dito, Roberto permitiu-se mais musicalmente. De 1976 em diante ele foi se tornando cada vez mais baladista, cada vez mais religioso e desenvolveu aquilo que até os anos 1990 era tido como "superstição" (o que na verdade era TOC - Transtorno Obsessivo Compulsivo). Se o RC setentista gravou compositores como Raul Sampaio, Demétrius, Silvio César, Caetano Veloso, Fred Jorge, Dorival Caymmi, Benito di Paula, Dolores Duran, Newton Teixeira e Jorge Faraj, Armando Manzanero, Beto Ruschell e Cesar de Mercês, Fagner e Belchior, Wando, Ronnie Von e Tony Osanah, além de Ívor Lancelotti e até clássicos do folclore andino como "El Huamahuaqueño", de Zaldivar, o RC oitentista irá tornar-se cada vez mais seletivo e recluso, reservando algum espaço nos seus concorridos discos de final de ano a uns poucos autores que melhor se sintonizavam com o seu universo romântico. É o caso de Maurício Duboc e Carlos Colla, Mauro Motta e Eduardo Ribeiro e Eduardo Lages e Paulo Sérgio Valle. Até mesmo compositoras que ele demonstrou gostar bastante como Isolda - com ou sem o irmão Milton Carlos - não resistiram a essa nova fase. A fórmula sedutora de milhões era tão cativante que nada menos que em quatro discos (1979-1982), uma canção de desamor de Eduardo Lages e Paulo Sérgio Valle encerrava o seu disco anual com o famoso logotipo da CBS. Repetitivo? Mas quem conseguiu o mesmo êxito por tanto tempo? A cobrança da crítica por uma renovação estética até resultou no refrão da exuberante "Fera Ferida": "Não vou mudar/esse caso não tem solução..."
Isso é tão factual que mesmo tendo lançado ainda grandes álbuns, principalmente até a primeira metade daquela década, os anos 80 vão ser marcados muito mais pela recusa de grandes canções compostas especialmente para ele. Se no excelente álbum de 1980 estavam o novato Djavan ("A Ilha") e pela segunda e última vez o colega da CBS, Márcio Greyck ("Tentativa"), tal LP poderia ter trazido ainda o paraibano Zé Ramalho, com "Eternas Ondas" e ninguém menos que Gilberto Gil, com "Se Eu Quiser Falar Com Deus". No entanto, as superstições/TOC do cantor as fizeram rejeitar os presentes. Na primeira, as imagens catastróficas de um mar e vento furiosos destruindo tudo pelo caminho provavelmente foram as causas de sua recusa em gravá-la. Curioso é que exatamente seis anos mais tarde, Roberto comporia com Erasmo sua própria escatologia com o rock "Apocalipse", mas com um importante detalhe para ele: as cenas catastróficas do fim do mundo são apenas uma assepsia necessária para a introdução do reino de Cristo e do reforço de sua fé cristã.
No caso de "Se Eu Quiser Falar Com Deus", a visão niilista de Gil que ao final vai dar em "nada, nada, nada" jamais combinaria com alguém que se diria "otimista demais" por sua fé em "Emoções" e cujo desejo de se aproximar de Deus jamais comungaria com a ideia de "comer o pão que o diabo amassou", "virar um cão" e "lamber o chão dos palácios e dos castelos suntuosos". Pedra cantada. Em 1995, Roberto comporia uma espécie de contraponto à canção de Gil com a sua "Quando Eu Quero Falar Com Deus". Essa desconexão de Zé Ramalho e Gil com a cosmovisão de RC, contudo, não explica o porquê dele também ter rejeitado a balada romântica "Aparências", que em 1981 virou sucesso popular na voz de Márcio Greyck. Três anos mais tarde foi a vez de Lulu Santos e Nelson Motta terem a sua "Certas Coisas" rejeitada por ele. Não se sabe ao certo o porquê do rei recusar a canção, mas Nelson Motta ouviu comentários de que as negativas do início da letra o teriam incomodado "Não existiria som/se não houvesse o silêncio/não haveria luz se não/fosse a escuridão...". No mesmo ano, a dupla Midas daquela década, Michael Sullivan e Paulo Massadas, compuseram a canção "Deslizes". Com uma temática até parecida com "Desabafo", mas ao contrário da reclamação desta última de um amor não correspondido à altura, "Deslizes" foca a abnegação e o conformismo do eu lírico. Era uma espécie de aceitação passiva em ser "pisado" a fim de merecer a mínima correspondência do objeto de seu amor, coisa inimaginável em RC.
Considerada pelo próprio RC como talismã, a compositora Helena dos Santos esteve presente nos álbuns do cantor desde que ele atingiu o sucesso em 1963 até 1972. As exceções foram "Roberto Carlos em Ritmo de Aventura" e do álbum de 1971. Segundo Paulo Cesar de Araújo, até quando Helena não acertou a mão, Roberto creditou a ela canções compostas verdadeiramente por ele. Seria o caso de "Do Outro Lado da Cidade", de 1969, e "O Astronauta", de 1970 (esta em parceria com Edson Ribeiro). Helena se despediu oficialmente dos discos do cantor em 1982, com "Recordações", após 10 anos sumida de seus discos. Rossini Pinto, que para a CBS correspondia ao que Fred Jorge era na Odeon, versionista de mão de cheia, sobreviveu mesmo somente os 60's nos discos de Roberto e basicamente como compositor. Já o seu concorrente, Fred Jorge, esperaria os 70's chegar para fazer parte, de forma irregular, do repertório discográfico do rei. Em 1983 conseguiria uma das raras proezas de sentar-se com ele para compor a balada "Recordações e Mais Nada". Companheiro de geração e colega da CBS, Renato Barros, ao contrário de seu irmão Paulo Cesar, teve uma pequena sobrevida até o álbum de 1971. A verdade é que a grande maioria dos compositores que abasteceram o repertório de RC nos 60's ficaram restritos a essa década. Ao adentrar em sua fase mais intimista e romântica, Roberto buscou outros compositores que assimilassem aquilo que ele queria expressar em seus novos discos. Uma raríssima exceção foi mesmo Getulio Côrtes. Como dito aqui, ele foi o maior responsável por cativar um público infantil para Roberto nos 60's que adorava os personagens e tipos que ele criava: o rapazinho apavorado de "Noite de Terror", "O Feio", o cara confundido com um larápio em "Pega Ladrão", o "Negro Gato" (este seu maior êxito na voz de RC), "O Sósia" até que Roberto adentrou em sua fase soul. Aí pareceu que seria o fim da linha para Getulio. Versátil, ele reinventou-se em "O Inimitável" com duas pérolas: "Quase Fui Lhe Procurar" e "O Tempo Vai Apagar" (esta dividida com Paulo Cesar Barros). E assim ele foi enfileirando composições nos discos do cantor até que em 1976 atingiu o seu limite. Encerrava a sua importante contribuição ao repertório do artista com a excelente "Por Motivo de Força Maior".
Um fator extra que poderia explicar, mas não justificar, a reclusão musical de RC dos 80's em diante foi o fato dele adotar o padrão comercial de apenas 10 faixas em seus discos. O padrão de 12 faixas dos 60's e 70's encerrou-se em seu álbum de 1977 e já no disco do ano seguinte, a CBS deu uma espécie de aviso ao lançar seu 18º álbum de estúdio com apenas 11 canções. No disco seguinte, o padrão das 10 faixas se estabeleceria, chegando até a apenas 9 em 1984. Tentava-se seguir a fórmula ultracomercial de Michael Jackson em "Thriller" de dois anos antes. Pelo menos nesse caso, os resultados comerciais foram bastante satisfatórios, pois aquele LP puxado por "Caminhoneiro" atingiu a vendagem de 2 milhões e 200 mil cópias vendidas, cifras que só RC conseguia até então no Brasil. Já a mesma tentativa em 1989 resultou num retumbante fracasso. O disco que era puxado por "O Tolo" e que refletia o fim de seu casamento com Myrian Rios vendeu pouco mais de 1 milhão de cópias, uma proeza para qualquer outro artista, mas para RC o sinal de que suas então novas canções já não seduziam o público geral como antes. Nesta década, além da seletividade autoral e das mudanças de estratégia mercadológica, RC deixou de usar o violão como base de suas novas composições. Isto não quer dizer nada em termos de inspiração e diversidade temática, mas de alguma forma simboliza o seu fenecimento criativo - a meu ver, muito em função da obsessão de repetir os mesmos resultados sem mais atentar para as mudanças do cenário musical, como ele bem soube fazer antes. Apesar de passar a compor num instrumento mais sofisticado, como se pode ver num momento do especial de 1985 em que aparece com Erasmo concluindo a canção "Símbolo Sexual" , o RC da segunda metade dos 80"s em diante é menos versátil, menos criativo, é mais pobre musicalmente. Não que em duas ou três canções a cada disco ele não tenha acertado a mão, mas o fato é que o seu brilhantismo de outrora foi entrando numa penumbra.
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| Nos 80's RC adotou o piano para compor |
Brega, popularesco ou tentando acompanhar as novas tendências comerciais?
- Como foi RC nos anos 1990
O mercado de discos mudou substancialmente no Brasil na última década do século XX. Crise econômica, uma nova geração de consumidores mais empobrecida culturalmente, artistas menos sofisticados, culto à futilidade e à sensualidade, substituição dos discos de vinil pela tecnologia digital do CD e pirataria levaram o curso da música brasileira gradualmente ao estágio mórbido da atualidade. Diante desse panorama e dos resultados insatisfatórios do último LP na década anterior, RC resolveu dar o braço a torcer, ou melhor, dar as mãos a mecanismos mercadológicos que antes rejeitava. Ele já não liderava as vendagens individuais de discos desde 1986, apesar de ter mantido o seu bom patamar ao princípio. Novos fenômenos como Xuxa, Beto Barbosa e a dupla Leandro & Leonardo os suplantavam em popularidade naquele momento. Foi então que para o seu álbum de 1990, ele finalmente decidiu liberar não uma, mas logo duas canções de seu novo LP para compor trilhas de novela da TV Globo. Para o então horário nobre das 8, ele liberou "Super Herói", o carro-chefe de seu 30º álbum de estúdio. Trilha da novela "O Dono do Mundo", exibida no ano seguinte, a canção é bem composta e produzida, mas a temática ainda remete à dor pessoal do cantor pelo fim de seu casamento com Myrian Rios. Já a composição de Roberto Livi e Salako, "Mujer", foi parar na trilha da novela das sete "Lua Cheia de Amor". Relativo sucesso de rádio foi mesmo "Meu Ciúme", de Sullivan e Massadas, cujo refrão 'chiclético' se ouviu principalmente em AM.
À essa altura, RC não contava mais com fiéis colaboradores autorais como Maurício Duboc e Carlos Colla e Mauro Motta e Eduardo Ribeiro, que tanto contribuíram com os discos do artista nas décadas de 70 e 80. Duboc e Colla se separaram em 1987; Motta e Ribeiro, em 1983 assim que Eduardo Ribeiro - na verdade, pseudônimo do produtor e gerente-geral da CBS, Evandro Ribeiro - deixou a multinacional e desfez a dupla. Órfãos de seus parceiros, Motta juntou-se a Colla e compuseram nova dupla, além de individualmente passarem a compor com outros parceiros também. Neste álbum, inclusive, Carlos Colla junta-se a Gilson (aquele de "Casinha Branca") e entregam a Roberto a faixa "Um Mais Um"; no álbum seguinte, Colla compõe com Marcos Valle (de "Samba de Verão" e "Estrelar") a balada "Não Me Deixe". Já Mauro Motta dá uma sumida e só reapareceria em 1992 juntando-se "hibridamente" a Paulo Sérgio Valle para compor "Você Mexeu Com a Minha Vida", cujo arranjo pagava tributo para o sertanejo romântico em evidência no momento. Por falar nisso, o álbum de 1991 já trazia um RC nitidamente querendo dialogar com aquela nova coqueluche popular que lhe havia suplantando em vendas. A começar da capa em que posa com um vistoso chapéu de caubói texano, passando pela faixa de abertura "Todas as Manhãs", na qual solta o agudo e insere até uma 2ª voz para surfar na onda sertaneja.
Nesse ponto, cumpre-nos questionar? RC abriu mão de sua antiga coerência, aderiu ao brega/popularesco sacrificando a qualidade musical de seus discos para sobreviver no mercado? Sempre haverá quem diga que sim, pois se compararmos com as suas produções dos 70's e 80's será nítida a diferença de qualidade. Entretanto, um artista plenamente consolidado como ele e com um dos maiores fã-clubes do mundo precisaria se automutilar? Os mais reverentes à sua realeza dirão que Roberto apenas "sertanejou" porque quis, porque sempre gostou do gênero haja vista já em seu especial de 1986 ter convidado Chitãozinho & Xororó, Christian & Ralf e o veterano Ranchinho. Quando a crítica o quis rotular de "oportunista", Zezé di Camargo (fã confesso do cantor) saiu em sua defesa "eu não acho que RC está nadando na nossa praia, nós é que sempre nadamos na dele".
Enfim, o fato é que RC se aproximou mais do popularesco nos 90's, mas justiça seja feita, ele acabaria encontrando sua própria fórmula de adaptar-se àqueles novos tempos, no qual o romantismo baladista não era mais o padrão cult de consumo popular. No seu 32º álbum lançado em 1992, ele inaugurava a sua saga de Don Juan das desprezadas com a salsa "Mulher Pequena". Inspirado nos 1,56 m de altura de sua esposa, Maria Rita, e reforçado pela informação da média de altura da mulher brasileira, que é de 1,61, ele lançou-se a decantar as baixinhas. Neste disco que trouxe outros hits como "Você é Minha" e "Dizem Que Um Homem Não Deve Chorar", a capacidade vocal do cantor começa a decair em termos de extensão. Ele vai se tornando cada vez mais nasal e quase fanho, o que o obriga a cantar em tons mais baixos e seguros - nos anos 2000, quase a sussurrar.
No álbum seguinte - o mais popularesco e mórbido que já lançou - o estereótipo explorado foi o das gordinhas com o forró "Coisa Bonita". Era um RC inimaginável duas décadas antes. Em 1994 ele abriu um parêntese e resolveu homenagear outros profissionais do volante em "O Taxista". "Outros", pois já havia homenageado os caminhoneiros em 1984 e 1993.Voltaria à saga das mulheres discriminadas em 1995 com o rock "O Charme dos Seus Óculos". Encerrou esse expediente mercadológico no ótimo álbum de 1996 - para este autor o melhor da década e o último digno de elogios que ele lançou - com "Mulher de 40" e a salsa "Cheirosa". Daí lançaria um disco basicamente interpretativo com "Canciones Que Amo" focando clássicos latinos em espanhol, até desaguar no mutilado álbum de 1998, que devido ao agravamento do estado de saúde de Maria Rita, não pode ser concluído. Nos anos 2000, RC se tornaria um pálido reflexo do artista genial que outrora havia sido. Para os mais inquisidores, tornou-se apenas um artista caricato.
A autoanulação neste século XXI
Sempre que escrevo algo a respeito de RC, procuro me colocar no limiar entre a pessoa e o artista, entre a razão e a emoção. Ambas tarefas são difíceis. Primeiro que a obra do cantor é profundamente autobiográfica e praticamente artista e pessoa formam um uno inseparável. Segundo que sou fã convicto de sua obra, mas nem tudo o que ele fez é impassível de uma crítica desfavorável. Seja Michael Jackson, Elvis Presley, John Lennon ou Paul McCartney, nenhum artista acertou em tudo o que fez. Como visto aqui, o TOC foi limitando e enclausurando RC. Ainda que tenha tomado caminhos questionáveis nos anos 90, fato é que ele continuou produtivo e compondo ao lado de seu parceiro, Erasmo Carlos. Infelizmente, sua vida pessoal sofreu um duro golpe com a precoce perda de sua mulher, Maria Rita, em dezembro de 1999. Este infausto afetou decisivamente a sua carreira. Já falamos do álbum mutilado de 1998, o qual trouxe somente 4 faixas inéditas e as 6 restantes foram retiradas de uma apresentação ao vivo. Em 1999 não houve nem álbum inédito nem especial de Natal. RC retomaria a carreira um ano depois com o álbum "Amor Sem Limite", naturalmente todo dedicado à esposa falecida. O que era compreensível e aceitável em um disco, tornou-se um dogma em todos a partir dali: cantar sempre o amor bem sucedido inspirado em seu amor por sua terceira companheira. RC se tornou absolutamente previsível, redundante e caricato. O pouco que produziu desde então produziu sozinho, sem Erasmo. Em 20 anos, foram apenas 3 álbuns completos lançados, excetuando-se gravações ao vivo ou releituras de clássicos. Destes 3, só "Pra Sempre", de 2003, era um disco realmente inédito. Acerto de mão como nos velhos tempos só mesmo com "Esse Cara Sou Eu", em 2012, mas num EP de 4 faixas. Roberto desmilinguiu-se musicalmente. Aí cabe-nos outro questionamento: ele se autoanulou ou entrou em franco processo de esgotamento criativo?
É muito difícil responder com cem por cento de certeza, pois avaliar um artista que aboliu, por exemplo, a temática do desamor de suas canções, sendo esta uma das grandes razões da identificação do público com ele, é não ter a justa referência para avaliá-lo. Não sabemos se caso Maria Rita permanecesse viva, ele teria definhado criativamente, pois coincidência ou não, isso se deu logo após ela ter piorado de saúde e principalmente depois que faleceu. Quem sabe com o grande amor de sua vida ao seu lado, Roberto teria tido forças para arriscar projetos inéditos e inspiração para compor como nos áureos tempos. Contudo, cabe-nos também afirmar: poucos artistas no mundo podem sobreviver somente com o que fizeram há duas décadas e meia, três, quatro ou cinco. Ninguém se manteve no topo durante tanto tempo; ninguém reina mesmo produzindo tão pouco em duas décadas e permanece na liderança sem ser molestado. É tão factual isso que a Crowley, empresa que monitora emissoras de todo o país, apurou que desde 1997, mesmo com o predomínio de outros gêneros no mercado nacional, RC é o artista com mais execução nas rádios, deixando Zezé di Camargo & Luciano em 2º, Bruno & Marrone em 3º e o bambambam da década passada, Luan Santana, em 4º. Ninguém influencia tantas diferentes gerações nem correntes de artistas tão díspares quanto ele. Do popularesco Fernando Mendes ao roqueiro Paulo Ricardo; do performático Beto Barbosa aos sertanejos Leonardo, Zezé di Camargo e Xororó. Ninguém paga tributo à sua obra em nichos musicais tão antagônicos: de Maria Bethânia, Gal Costa, Nara Leão e Nana Caymmi a Marcelo Falcão, do Rappa, ou Lulu Santos e Marina Lima. Enfim, ao chegar à 8ª década de vida, RC vê o seu longevo reinado praticamente impossível de (sequer) ser igualado, imagina ultrapassado. É de longe o artista de maior êxito e o mais querido da história da música popular brasileira. Não sabemos o tempo que ainda o teremos. Como todo fã, creio que esse dia será um dos mais difíceis quando chegar. Não imaginamos nossa vida sem Roberto Carlos; o que faremos para tentar preencher nossos finais de ano quando ele se for. Só pedimos a Deus que ainda demore muito; bom seria que não chegasse nunca esse dia. Mas se chorarmos ou sorrirmos, o importante é que as emoções que ele nos proporciona há tanto tempo, não deixarão de mexer conosco até também partirmos. Obrigado rei! Obrigado Deus por ter nos dado a nós, brasileiros, o artista mais emblemático, o maior pop-star da América Latina, o mais carismático e o maior vendedor de discos desde que a indústria musical foi aqui criada em 1902. Parabéns Roberto! Muita saúde. Nós do blog e da página lhe desejamos muitos anos de vida ainda.
Fontes consultadas:
Roberto Carlos em Detalhes (Paulo Cesar de Araújo-Editora Planeta/2006)
O Réu e o Rei (Paulo Cesar de Araújo-Editora Companhia das Letras/2014)
Revista Fã Clube-Roberto Carlos (-Editora Imprima/1983 a 1987)
Brasil, Rito e Ritmo - Um Século de Música Popular e Clássica (Leonel Kaz, Ricardo Cravo Albin, João Máximo, Tárik de Souza, Luiz Paulo Horta-Editora Aprazível/2004)
Links e sites:
*A Odeon Records tornou-se EMI Music em 1985, mas sobreviveu como selo secundário e a EMI por sua vez foi adquirida pela Universal Music Group. Esta também mantém o selo Odeon para relançamentos e lançamentos especializados








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