POR QUE ROBERTO CARLOS OCUPOU POSIÇÕES TÃO DISCRETAS NAS PARADAS DOS 80's?

OS ÁLBUNS OITENTISTAS DO REI

Se alguém me perguntasse, como fã e conhecedor da carreira de RC, qual teria sido o auge de sua longeva trajetória, eu lhe responderia o seguinte: depende do que você leva em consideração para apontar esse auge. Com a carreira mais bem sedimentada da música brasileira, o rei tem vários auges. Se o auge que alguém quer se referir diz respeito à idade e o poder de penetração entre as camadas mais jovens do público, o auge de RC foi entre 1965 - quando ele se tornou um fenômeno de popularidade aos 24 anos - e aproximadamente 1970, aos 29, um ano antes dele assumir definitivamente sua veia romântica. Agora, se esse auge leva em consideração o fator vanguarda e ousadia estética, sem dúvida a sua fase soul (1968-1970) é o clímax de sua arte musical. Entretanto, uma terceira via de opinião que levasse em conta criatividade e popularidade, aí a década de 1970 seria a mais forte candidata. Existiria ainda uma quarta via a qual este autor apontaria, mesmo reconhecendo as demais: a década de 1980. Razões não faltariam para isso: 1) Foi nessa década que o cantor (já quarentão) alcançou suas maiores vendagens; 2) Foi nela que a crítica internacional lhe alcunhou de "Frank Sinatra brasileiro"; 3) Também foi nela que em 1982 ele atingiu a cifra de 5 milhões de discos vendidos fora do Brasil e recebeu de sua então gravadora, a CBS, o Globo de Cristal; 4) Foi nos anos 80 que ele começou a se apresentar nos Estados Unidos, recebeu o Grammy Award, o Oscar da Música, liderou a parada latina da Billboard - referência da indústria musical norte-americana - e teve suas mãos gravadas na calçada da fama em Los Angeles 5) Empreendeu um nível de showbusiness com o Tour nacional "Emoções", em 1983, que só superastros do pop anglo-americano se permitiam e 6) Bateu seguidamente os recordes de execução de seus lançamentos num único dia, com "Caminhoneiro", em 19 de novembro de 1984 (3.287 vezes), "Verde e Amarelo", de 1985 (3.577 execuções) e "Apocalipse", de 1986 (3.608 execuções).
Todavia, algo sempre me encrinquilhou quando fui pesquisar o Top List das canções mais executadas nas rádios brasileiras naquela década. A verdadade é que Roberto Carlos ocupou posições absolutamente discretas para sua envergadura e para o seu sucesso de público e de crítica (pelo menos lá fora). O que aconteceu? Por que aconteceu? RC foi um fracasso nas rádios, mesmo levando em consideração somente a primeira metade daquela década? Vejamos as posições ocupadas pelo astro nas paradas oitentistas:
1980: 19º lugar com "Amante à Moda Antiga";
1981: 4º lugar com "Emoções" e 26º com "Cama e Mesa"
1982: 38º lugar com "Fera Ferida"
1983: 37º lugar com "O Côncavo e o Convexo"
1984: 14º lugar com "Caminhoneiro"
1985: 50º lugar com "Verde e Amarelo"
1986 a 1989: Não parece nem entre as 100 Mais
Vemos claramente que com a exceção de 1981, Roberto ocupou posições discretíssimas entre 1980 e 1985. Na segunda metade da década, então, sequer aparece entre os 100! Como explicar isso? RC experimentou uma decadência musical que o grande público simplesmente não lhe deu ouvidos nos anos 80? Não, a pergunta contém uma inverdade absoluta e uma verdade relativa respectivamente. Não, Roberto Carlos não experimentou uma decadência musical na década de 1980. Ele não decaiu, mas também não evoluiu. Ele estagnou musicalmente. Este foi o grande problema do rei naqueles efervecentes anos 80. Porém, faz-se necessário um importante adendo: Essa 'estagnação' do cantor poderia ser lida também de outra forma, porém positiva: coerência. Esta explica a fidelidade do enorme público cativo que Roberto manteve, mesmo na década de 80 quando não liderou as paradas, mas continuou líder de vendas até 1985. Quer dizer, o público adulto, que amadureceu ouvindo o cantor permeneceu fiel a ele. No entanto, a nova geração que despontou nos 80's foi a que não se indentificou com o seu romantismo cada vez mais intenso. Na verdade, desde o absoluto sucesso de seu álbum de 1977, com quase uma dúzia de sucessos românticos do calibre de "Falando Sério", "Cavalgada", "Não Se Esqueça de Mim", "Pra Ser Só Minha Mulher" e "Outra Vez" e 2,2 milhões de cópias vendidas, o cantor conformou-se ao seu próprio êxito e à fórmula que deu tão certo. Dali para diante, RC pouco ousou e fixou o público adulto como alvo de seu romantismo explícito. Mas até àquela década, Roberto liderou as paradas, o indiferentismo do público jovem assomou quando o país começava a experimentar a reabertura política. Esta ensejou novos anseios da juventude. Ao mesmo tempo que o pop internacional encontrava cada vez mais repercussão aqui, as trilhas de novela da TV Globo serviam de vitrine não só para os novos artistas que despontavam, mas para quarentões e trintões da MPB pós-tropicalista que ainda estavam em pleno vigor criativo. Não à toa as canções ocupantes do Top 20 são em geral pertencentes a alguma trilha de novela e como se sabe, RC recusou durante muito tempo ceder suas canções para os folhetins globais.
Porém, mais do que pertencer ou não a um trilha de novela, o Brasil estava mudando. Tratou-se de uma demanda ou aspiração natural de uma nova geração que não se identifica com o gosto e o patrimônio afetivo-cultural de seus pais. Assim como a geração de RC em meados dos 60's rompeu com a geração anterior, a Geração 80 aspirava coisas além do romantismo conservador de canções, para ela, considerada piegas. Há ainda o fato do aspecto social que emergia na nova década e que se somou ao aspecto natural. Segundo dados do IBGE, de 1980, 55% das residências brasileiras já possuíam aparelho de TV. O que esse dado estatístico tem a ver com as posições de RC nos Hit Parede? Significa que a TV passou a ocupar um papel cada vez mais importante no gosto musical do público, sobretudo por intermédio das telenovelas, como dito antes. Até os anos 1970, o fluxo de formação das paradas se dava, sobretudo, do rádio AM e FM (bem menos nessa década) para a TV. O grande mostruário dessa fase foi o extinto programa Globo de Ouro, da TV Globo, criado no final de 1972. Na década seguinte (a que estamos abordando aqui), a emergência de uma nova geração que estava ali entre os seus 14 e 22 anos, mais ou menos, motivou a mesma emissora a criar o programa Geração 80, em 1981, apresentado por Nádia Lippi e Kadu Moliterno, inicialmente um quadro dentro do próprio Globo de Ouro que se tornou independente mais tarde. É verdade que artistas já consagrados também se apresentavam ali, mas RC devido aos seus diversos compromissos e o contrato de exclusividade que lhe obrigava a aparecer, no máximo, uma vez por ano na TV, nunca se apresentou no Geração. Paralelamente a isso, já existia também desde a década anterior o desejado Clip do Fantástico, uma vitrine igualmente indispensável a todo artista, novato ou já consolidado. Em 1983, em tom revolucionário surgia o Vídeo Show mostrando os bastidores da TV e da produção musical e no mesmo ano o Clip Clip, uma espécie de antecessor da MTV brasileira, que ainda surgiria no começo dos 90's.
Tudo esse panorama televiso da década em que se aspirava liberdade e rompimento com os padrões de gosto e comportamento da geração anterior, ensejou um novo fluxo no qual o sucesso também passou a ir da TV para o rádio. Concomitantemente o rádio FM se popularizou entre a juventude urbana virando sinônimo de vanguarda. Havia um nicho mercadológico de consumo jovem pronto para explodir nos anos 80 e esse feedback foi experimentado primeiramente por artistas como Guilherme Arantes, Marina (Lima), Pepeu Gomes, Eduardo Dusek, Marcelo e bandas como Rádio Táxi e Roupa Nova. Posteriormente, vieram Dalto, Biafra, Vinicius Cantuária, Renato Terra, 14 Bis, Ritchie, Lulu Santos, além naturalmente da grande fase comercial vivida por Rita Lee entre 1979 e 1983. Mais românticos ou mais roqueiros, esses artistas traziam uma linguagem nova que não somente se encaixava melhor aos anseios da juventude, mas rompia com o romantismo mais direto e sentimentalista da geração anterior da qual RC era o maior representante.
Já no MPB Sheel, de 1981, a banda Gang 90 & as Absurdetes, de Júlio Barroso, foi aclamada pela juventude com o escracho de sua "Perdidos na Selva" e via-se que o rock tinha um mercado sedento. Isso se confirmou no verão de 1982 quando a Blitz, com "Você Não Soube Me Amar" estourou abrindo a clareira para a série de bandas do chamado BRock que vieram na esteira de seu sucesso. As bandas e artistas-solo do Rock Brasil começaram a falar de comportamento, crises amorosas e existenciais juvenis, problemas sociais, política e algumas até mesmo a contestar instituições como a família, a igreja e mais tarde, com a nova Constituição em vigor, a propor a bissexualidade como a Legião Urbana em "Meninos e Meninas". Enfim, a 'revolução cultural' ou 'contracultura' que Estados Unidos e Reino Unido experimentaram nos anos 1960, o Brasil viveu nos 1980.
Como dito, RC foi se afastando do público jovem mais pontualmente desde 1977 e suas canções iam na contramão da expectativa da juventude. Estamos falando de um nicho de mercado que veio a ser o mainstream musical, cultural e comportamental nos anos 1980. Bastante sintomático desse isolamento de RC da vanguarda musical dos 80's foi sua recusa em gravar a composição "Certas Coisas", de Lulu Santos e Nelson Motta, em 1984.feita especialmente para ele. É lógico que essa recusa não se deu por antipatia e estrelismo, mas por suas convicções musicais. Os que o cobravam por uma renovação estética diriam 'medo de arriscar' ou 'conformismo comercial'. Já os que o aceitavam como patrimônio afetivo da cultura brasileira, lhe diriam talvez 'coerente', 'sensato'. 
Com a chegada da geração do BRock ao mainstream, uma mídia especializada voltada para a música jovem se consolidou no Brasil, sobretudo as revistas Bizz, Pipoca Moderna e Som Três, além de colunas nos principais jornais como o Jornal do Brasil, O Globo, O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo. No Jornal do Brasil, o jornalista e crítico musical, Jamari França, era um dos mais indispostos com Roberto Carlos, cobrando-lhe, sobretudo, renovação estética em seus discos. Em janeiro de 1985, aconteceu a 1ª edição do Rock'n Rio para o qual o empresário Roberto Medina relata ter convidado RC para se apresentar no mesmo, mas quem se apresentou e foi execrado pelo público fã de heavy-metal foi seu 'amigo de fé e irmão camarada' Erasmo Carlos. Talvez RC tenha sido realmente sensato e coerente ao não aceitar o convite, visto que havia deixado o rock havia, então, dezoito anos. Soaria oportunista e artificial ele participar de um evento de celebração ao rock, sendo que ele se tornara um baladista romântico havia 14 anos.
Bom, mas dito tudo isso, pode não ter se tornado clara a resposta por que ele ocupou posições tão discretas nas paradas da década de 1980. Além de todos os motivos já expostos aqui, fato é que o BRock serviu de elo entre as aspirações e necessidades da juventude oitentista e a indústria cultural. A geração do Rock Brasil captou, absorveu e processou o que acontecia lá fora no pós-punk, na new ave e no synthpop e os traduziu para a realidade brasileira. Como dito mais acima, o grande problema de RC nos anos 80 foi que ele deixou de ser vanguarda. Devido a isso a maioria da juventude oitentista não lhe deu ouvidos, pois não se sentia representada em sua músicas. Foram poucos que foram adolescentes nos 80's, como eu, que o acompanharam em seus novos lançamentos.
Lembro que no álbum de 1987 - que críticos até assumidamente fãs do cantor execram - ele tentou se reaproximar da juventude lançando um funk melody ("Tô Chutando Lata") e revestiu um libelo antidrogas ("O Careta") de uma sonoridade hard-rock, que para mim na época agradou-me bastante. Eu conseguia curtir o Rock Brasil e Roberto Carlos sem ver nenhuma contradição nisso. Talvez porque não entendesse, então, que "O Careta" ia justamente na contramão da contracultura proposta pela maioria dos representantes do BRock. Além disso, segundo o crítico Régis Tadeu, as bandas e artistas-solo do movimento tiveram espaço garantido na TV e no rádio ao custo do jabá. Segundo ele, as majors (CBS, EMI e Warner especificamente) tinham dinheiro em caixa sobrando porque os artistas populares (entre os quais o próprio RC) e suas grandes vendagens custeavam esse investimento. Mas nem todas as bandas atingiram cifras milionárias em vendas como RPM e Legião Urbana; contudo, tocavam muito no rádio, tinham espaço na TV e junto com o pop internacional dominaram os Hit Parede naquela década. Esse fato nos ajuda a elucidar muito provavelmente a ponta do iceberg. Muitas bandas e artistas-solo do Rock Brasil tinham execução maciça no rádio, mas não vendiam quantidades significativas de discos. O motor desse espaço cativo no rádio era o jabá. Em contrapartida, RC não tinha o mesmo espaço, sobretudo em FM, mas vendia milhões de discos, pois seu sucesso era espontaneamente garantido por seu enorme e fiel público.
Então, as paradas não refletem exatamente (com raras exceções) o que foi sucesso de fato no Brasil na década de 1980. Ritchie e os já citados RPM e Legião Urbana, por exemplo, mais espontaneamente, enquanto grandes hit-makeres como Lulu Santos, Marina Lima e Guilherme Arantes, embora reconheçamos que produziam música de qualidade, foram sucessos relativamente artificiais. Como RC não aparece sequer entre os 100 em 1986 ou 1987 se vendeu em ambos 2 milhões de cópias de seus discos anuais? O fato da popularização do rádio FM e seu apelo maior à juventude não explica por si só um disparate tão absurdo. Esta tendência natural apenas se somou, em minha opinião, ao fator artificial das execuções maciças compradas pelo jabaculê - o velho catitu da era de ouro do rádio. Se RC tivesse caído bruscamente em vendagens naquela década, seu sumiço das paradas seria um reflexo natural e incontestável da execução de suas músicas no rádio. Ele até experimentou uma queda em vendas em 1988 e 1989, quando seus respectivos álbuns venderam 1,5 milhão de cópias e 1,2 milhão, mas mesmo esses números são muito expressivos para ele ter desaparecido dos Hit Parede, especialmente, na segunda metade da década. Até Amado Batista, um artista muito popular e que vendia 1 milhão de discos (mas que àquela altura ainda não tinha penetração em FM) ocupou o 76º lugar em 1987 com a sua "Hospício". A única explicação possível e plausível para isso é mesmo o jabá. Com a sua carreira estável e dono de um privilégio único de ter garantidos pelo menos 1,5 milhão de discos vendidos a cada lançamento, RC não necessitava dessa catapulta financeira como os outros artistas para veicularem suas músicas e obter retorno nas vendagens e nos shows. Em contrapartida não tocava no rádio tão frequentemente, a não ser quando do lançamento de suas novas canções.
Fontes:
Livro "O Réu e o Rei" - Paulo Cesar de Araújo - Editora Companhia das Letras (2014)
Livro "Geovisão"/Segundo Grau - Antonio Marum - Editor Lê (1981)
Livro "Querem Acabar Comigo"/Da Jovem Guarda ao Trono, a trajetória de Roberto Carlos na visão da crítica musical -Tito Guedes - Editora Máquina de Livros (2021)

 
      
    
     

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