E FOI ASSIM QUE ME TORNEI FÃ DE RC AOS 3 ANOS...

Roberto em meados dos 80's

Há algumas coisas que não há como eu renegar em minha vida: a minha fé, meu romantismo, o Flamengo e... Roberto Carlos. Neste momento em que escrevo são 46 anos de paixão pelo maior e mais popular artista do Brasil. Eu até tentei e me afastei dele após me converter ao Evangelho, entre novembro de 1997 e, mais ou menos, por volta do fim de 2000. Percebi então que as canções do Roberto ainda pulsavam fortemente em minhas veias, que o meu romantismo incorrigível e a enorme identificação com sua pessoa criaram naturalmente um elo que não poderia ser quebrado artificialmente. Chego a dizer - embora até pareça exagero - que viver sem Roberto Carlos seria renegar  a mim mesmo. Mas como se deu esse tão forte vínculo com o cantor de maior êxito da música brasileira? É o que passo a narrar abaixo.
A primeira vez...
Era o inverno (amazônico) de 1977, a disco music - ou discothéque - estava em voga e morávamos na Passagem Quarubas, no bairro da Pedreira, subúrbio de Belém do Pará. Eu era bastante menino, tinha apenas 3 anos e éramos inquilinos de uma senhora chamada Maroquinha. Tenho até hoje essa peculiaridade de ficar absorto momentaneamente me desligando de tudo ao meu redor. E foi o que aconteceu naquela manhã de céu encoberto quando chegou aos meus já sensíveis ouvidos umas canções de melodia agradável que me chamaram a atenção. Um vizinho (ou vizinha) dos fundos ouvia o então recente LP de Roberto Carlos de 1976. Nunca esqueci que ouvi atentamente "Os Seus Botões", "Pelo Avesso" e "Você Na Minha Vida". Ninguém era fã em potencial em casa do cantor e apesar de não termos um aparelho de som - talvez não tivéssemos nem rádio de pilha ainda - eu fui à medida de cada audição aleatória gostando cada vez mais daquele artista que nem sabia o nome. No ano seguinte já tínhamos um rádio portátil de pilhas grandes, da marca Philco, Modelo Transitone, medindo 23 cm de largura, 18 cm de altura e 0,7 cm de espessura lateral, cor azul celeste já meio desbotada, pois minha mãe o adquiriu de segunda mão. Esse rádio ficou conosco até 1984, quando já estávamos na Cidade Nova, em Ananindeua. Foi nesse rádio que ouvi outras canções que marcaram a minha infância e o meu desvirginamento musical como o bolero "Foi Assim", com a minha conterrânea Fafá de Belém, a envolvente "Nuvem Passageira" com o gaúcho Hermes Aquino, a romântica "Você Às Vezes Até Sou Eu", com um ainda novato Wando, a belíssima "Jura Secreta", na interpretação fabulosa de Simone, a insinuante"Vai Meu Irmão", com Antonio Marcos e internacionais como "Fly Robin Fly", do Silver Convention.

O álbum de 1976: a primeira audição

Esquisito e cabeludo
Em 1978 minha mãe teve que fazer uma cirurgia ginecológica e fiquei uns tempos na casa de minha tia Nazaré, na Rua Nova, também no mesmo bairro. Ela tinha uma eletrola e vários discos dos quais cujo rótulo era um deleite de menino sonhador ficar olhando as diferenças, logotipos e cores. Era um mundo maravilhoso do entretenimento que ainda não estava ao alcance de nosso poder aquisitivo. Era pra mim como um parque de diversões ou loja de brinquedos que a gente olhava encantado a distância. Foi lá que pela primeira vez vi a imagem de Roberto Carlos na qual ele posa - como quase sempre absorto - na capa e contracapa do seu álbum de 1974. Para mim, criado sob a educação e um certo rigor da valorização da identidade masculina, ver um homem com aqueles cabelos enormes me causou estranheza e algum espanto.
Capa do 14º álbum do cantor: a primeira foto sua que vi
Àquela altura. Roberto Carlos já não era mais "louco, esquisito e cabeludo" como no tempo da Jovem Guarda, era só 'esquisito e cabeludo'. Esquisito para mim, cabeludo para todos. Vejam vocês que esse álbum não traz o seu nome na capa e mesmo se tivesse ficaria sem saber, pois ainda não sabia ler. Naquele mesmo ano em que aconteceu a 11ª Copa do Mundo, na Argentina e fomos alijados da final por uma armação entre nuestros hermanitos e alguns jogadores do Peru, zapeando o nosso rádio de pilhas Eveready (as pilhas do gato), eu sintonizei o programa "Roberto Carlos Especial", da extinta Rádio Guajará AM. Foi aí que soube que aquele cantor, de cujas músicas gostava tanto, chamava-se ROBERTO CARLOS. Nunca esqueci que a vinheta do programa emulava as primeiras notas em Si maior com sétima, Mi e Lá de "Detalhes" com a letra "Roberto Carlos Es-pe-ci-al...". Pronto! Foi devido a esse programa na saudosa rádio, cuja concessão e prefixo seriam mais tarde adquiridos pela Igreja Assembleia de Deus (o que primeiro foi a Transpaz e hoje Boas Novas AM), que dei os primeiros passos sozinho na minha robertomania. 
Perdi audiovisulamente muitas coisas in chronos do Roberto por não termos TV em casa, como o excelente especial de 1979 ou o de 1981, mas isso não impediu de eu ir me tornando espontaneamente e gradualmente cada vez mais fã do cantor. No início dos anos 1980 descobri o programa "Detalhes e Momentos", este na Rádio Liberal AM, com músicas de Roberto e Julio Iglesias. Romântico, adorava aqueles poemas lidos no ar pelo professor Clodomir Kolino servindo de preâmbulo da canção a ser executada. O que para alguns poderia ser uma boa dose de água-com-açúcar e pieguice, para mim já na faixa dos 7 ou 8 anos, era um prazer lírico que encerravam romanticamente as noites de domingo.
Meus amores da televisão
Foi somente quando viemos pra Cidade Nova - então conjunto-dormitório dos adultos que trabalhavam em Belém - que eu tardiamente assisti o primeiro especial de Natal de RC, o de 1982. E dei sorte pra compensar o atraso de 8 anos. Foi um grande especial, um dos melhores que ele já fez. Nós continuávamos sem ter TV, mas dei uma de bicão na casa do vizinho Rui, que para minha sorte, também era fã do cantor. Lembro que ele deu de presente para sua esposa - a saudosa Ângela - o então novíssimo LP do Roberto Carlos, o que trazia "Amiga", com Maria Bethânia, e a genial "Fera Ferida". Ele fez um 'enxame' doido. Pegou uma caixa enorme de papelão e pôs o disco dentro pra causar nela a impressão de algo grande.Lembro que ele preparou a pegadinha em casa, com auxílio da minha irmã Anália, com lacinhos e tudo. O Especial foi tudo de bom. Lembro da abertura com Roberto caracterizado de Carlitos, cantando "Emoções" no play-back original da gravação do ano anterior e os bailarinos seguindo coreografias ao som do clássico fox inspirado em Tony Bennett. Naquela época, os especiais do cantor não eram repetitivos como se tornaram a partir do fim dos anos 1990, que são meros shows gravados para uma plateia de artistas convidados da Rede Globo. Eram especiais temáticos e alternavam o show com quadros e clipes gravados em externas. Em 1982, a direção coube a Guga de Oliveira, depois de um longo período nas mãos de Auguto César Vanucci, que foi quem mais dirigiu Roberto Carlos na televisão. Um dos melhores momentos do programa é quando RC canta com a presença de Erasmo Carlos, o folk "Meus Amores da Televisão". A letra evoca um fã incondicional de novela (o próprio Roberto) que se envolve tanto nas tramas que se apaixona platonicamente pelas atrizes que interpretam as personagens. É cômico ver as caras e bocas do Erasmo, estupefato ao ver surgirem no saloom cenográfico beldades do quilate de Regina Duarte, Irene Ravache, Carla Camurati, Christiane Torloni, Bruna Lombardi e Lídia Brondi, todas lindas e no auge. 
Coincidentemente e curiosamente, o eu lírico dessa canção podia também ser eu que, na época, era vidrado em novela e vivia me apaixonado pelas atrizes, imaginando-me o galã das cenas que elas representavam. Roberto Carlos parecia assim compor canções que tinham minha pessoa como eu poético. É a tal da identificação do fã com o artista e suas canções.
Roberto Carlos em Ritmo de Aventura
O 1º filme do rei como protagonista

Como deve ter ficado claro, eu conheci Roberto Carlos já como cantor romântico. Como não vivi a época da Jovem Guarda, nascendo somente 5 anos depois, a fase roqueira dele permaneceu oculta durante algum tempo. Recordo que o primeiro contato com uma canção dele dessa fase ocorreu em 1981. Um amigo já saudoso, o Paulinho, tinha uma revista de músicas do Roberto (provavelmente Saber Violão) que me lembro ter cantado com entusiasmo "O Gênio", do álbum de 1966. Mas o primeiro contato mais figadal com o Roberto irreverente foi ao assistir o filme "Roberto Carlos em Ritmo de Aventura", o qual passou na Sessão da Tarde em 1984. Contudo, eram mesmo os lançamentos anuais que ia acompanhando e curtindo paralelamente aos artistas-solo e bandas dos anos 1980, que íam me graduando em Roberto Carlos sem nenhum conflito estético. Foi somente em 1989, já então fã há 12 anos, que comecei a ter contato mais íntimo com a obra histórica do Roberto. Comecei a adquirir nas bancas de jornal, as revistas Fã Club, da Editora Imprima. Foram nelas que dei os passos iniciais para saber tudo o que sei do cantor. Isso só me fez ainda mais fã. Comprei também a Saber Violão que trazia as letras de todas as suas canções até o disco lançado naquele ano. Foi também no ano em que Collor foi eleito o primeiro presidente por via direta após o Regime Militar que comprei meus primeiros cassetes. O 1º foi do álbum de 1981, o 2º de 1977 e o terceiro, de 1978. Não demorou muito e comecei a comprar os LPs. E como não poderia deixar de ser, o primeiro foi o de 1976. O vasto universo musical de Roberto Carlos se descortinava para mim. Logo em seguida emprestei uns discos de uma outra tia, os quais ouvia numa obsoleta eletrola a nós dada por ela, mas era o que tínhamos então. Foi justamente a partir dali até 1997, quando me converti, que vivi a minha fase mais robertomaníaca. Eu respirava Roberto Carlos, sonhava com Roberto Carlos, queria ser o Roberto Carlos! Ali, Roberto Carlos foi de fato e de direito, o meu ídolo.
É pra mim compreensível hoje ter tido esse tipo de relação com o cantor, pois fui um adolescente introvertido, reprimido, o único filho homem, caçula e criado sem o pai por perto. Roberto Carlos me serviu de amparo, uma espécie de autoafirmação psicológica em meio à barra de ser um sujeito tímido e um pouco sem jeito com as garotas. Na fase acima citada, Roberto teve realmente uma importância incontestável para gostar de mim mesmo. De 1997 a 2000, como falei, a tentativa de me afastar do cantor durou pouco tempo e me deu a certeza que seu valor afetivo era pra vida toda. Incoerência com a minha fé? Idolatria? Sim, mas não depois de 2000. De lá até aqui a relação afetiva com a obra de RC não mudou, mas a relação com a pessoa sim. Não deixei evidentemente de gostar dele como ser humano, mas fui me tornando cada vez mais um fã consciente, na medida do possível, racional, limitado pela consciência bíblica de que somente Deus é perfeito e somente Ele deve ser objeto de adoração. Hoje eu sou um homem maduro de 50 anos que existe por si mesmo. Os ídolos não são mais necessários como dos 16 aos 24 anos. Roberto Carlos continua sendo o cantor do coração, o ser humano admirável, contudo, imperfeito como qualquer um de nós. Mas foi assim que me tornei seu fã aos 3 anos.
*Atualizado em 27 de julho de 2023, às 15:34 horas        

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