JESUS CRISTO SUPER STAR - O 10° E ÚLTIMO ÁLBUM DA FASE SOUL DE RC

Capa do 10° álbum. Fonte: Site Oficial RC
Lançado em dezembro de 1970, o último álbum da fase SOUL de Roberto Carlos teve, mais uma vez, a sonoridade da Black music americana como inspiração. E a inspiração que gerou um desejo explícito de reproduzir com suas marcas pessoais o som da Motown e de ícones negros como James Brown & Cia., se tornou obsessão quando da gravação da principal faixa de trabalho do novo disco. Roberto queria em Jesus Cristo aquela sonoridade que ele ouvia nos discos da icônica gravadora americana. Com uma levada e arranjo de funk, Roberto desejou uma timbragem de piano que não fizesse feio às lendas do SOUL. Todos os pianistas e organistas disponíveis no estúdio da CBS e fora dele no Rio, tentaram: Lafayette Coelho, o já consagrado Chiquinho de Morais, o novato Mauro Motta, o novinho Robson Jorge (com apenas 16 anos, então) e até Antônio Wanderley (tecladista da banda de RC). Nenhum conseguiu tirar do piano aquele som que Roberto tanto queria. Evandro Ribeiro mandou chamar até o pianista Fats Alpídio que tocava no Beco das Garrafas e nada. Desalentado, o cantor já pensava em deixar a gravação daquela canção para o seu disco do próximo ano, o qual seria realizado nos estúdios da matriz americana nos Estados Unidos. 
Foi aí que alguns integrantes do grupo Youngsters lembraram de Dom Salvador, um cara que havia gravado um disco na própria CBS brasileira com o grupo Abolição. Salvador foi, tocou e no primeiro take reproduziu a sonoridade que tanto Roberto Carlos queria para a sua música. Mas, essa é a parte musical da canção que originalmente foi colocada na 3ª faixa do Lado 2 do bolachão preto. E a inspiração, de onde veio para que o cantor compusesse com seu parceiro, Erasmo Carlos, uma temática que até antes nunca havia sido explorada em suas músicas? Em sua biografia não autorizada, Paulo Cesar de Araújo diz que Roberto foi influenciado por musicais como Hair  e Jesus Cristo Super Star. No entanto, este último foi apresentado na Brodway somente em 1973. O próprio Araújo ressalta que Roberto teve a ideia do tema ainda em 1969 ao revelar:
"Quando fiz Jesus Cristo eu apenas estava me tornando parte de um acontecimento mundial. De repente o mundo inteiro falava no assunto, as músicas falavam de Cristo e naturalmente eu fiz parte deste acontecimento como um cara qualquer. Ouvindo, lendo, enfim, tomando conhecimento de tudo que acontecia eu senti a mesma reação universal. Eu fui um da multidão que estava curtindo a mesma coisa".
Roberto Carlos estava na cidade de Cascavel, no interior do estado do Paraná, e num final de tarde, da janela do quarto do hotel onde estava hospedado, sentindo os raios solares que batiam no seu rosto, observou a multidão que se aglomerava na praça embaixo. Esse quadro das nuvens acima, do sol daquele crepúsculo de verão e das pessoas embaixo o inspirou a escrever as primeiras frases da futura nova canção "Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo, eu estou aqui...". Logo em seguida, veio a 1ª estrofe criada da canção "Olho pro céu e vejo uma nuvem branca que vai passando/olho na terra e vejo uma multidão que vai caminhando...".
Hoje, inclusive, o cantor - talvez pelo TOC, transformou Jesus Cristo numa espécie de epílogo ou ato final de suas apresentações. Quer dizer, enquanto Emoções tem sido há décadas o seu cartão de apresentação, Jesus Cristo é o seu atual cartão de encerramento.
Contracapa do álbum
Fonte: Blog Música do Brasil
A balada soul Ana foi composta a partir do primeiro nome de sua enteada Ana Paula Braga, filha do primeiro casamento de sua então esposa, Nice. A letra é simples, já o arranjo tem a clara participação do maestro Chiquinho de Moraes com cravos, flautas, violinos, metais agudos e graves criando uma ambivalência sonora sofisticada, principalmente quando a tuba é executada no solo da canção. O baixo com timbrangem soul (claro, a pedido do cantor num disco influenciado pela black music, talvez foi tocado por Paulo Cesar Barros?) e o indefctível órgão Hammond B3, de Lafayette, não poderiam faltar.
Uma Palavra Amiga é outra pérola soul do álbum - esta composta por Getulio Côrtes. Aqui o timbre de piano é bem bluseiro. A única crítica que faço a essa grande canção é a sua duração de apenas 2'55. Vista a Roupa Meu Bem é um charleston pouco compreendido por alguns: pelo seu arranjo incomum num disco de Roberto Carlos, talvez pela letra e pela forma fanhosa do cantor a interpretar. É que o estilo é tanto uma dança quanto um gênero americano gerado a partir do jazz nos pós-Guerra, popular nas décadas de 1920 e 30 nos EUA. Nas entrelinhas, a letra de Roberto e Erasmo sugere uma praia de nudismo onde um casal está fazendo amor e o eu lírico masculino convida a sua parceria a vestir-se a fim de selarem um compromisso. A voz fanha é proposital simulando o som chiado de uma gravação executada em gramofone, toca-discos então mais popular quando o gênero experimentou o seu auge em que as mulheres dançavam nos cabarés com saias curtas mostrando as pernas para delírio dos homens.
Meu Pequeno Cachoeiro ,do também cachoeirense Raul Sampaio, enfretou alguns dilemas para ser gravada finalmente pelo cantor. O seu autor a registrara em 1962 e quatro anos mais tarde, através de lei municipal, foi transformada em hino oficial da cidade do sul do estado do Espírito Santo. Ela foi intitulada por Raul apenas como Meu Cachoeiro. A partir deste ano, começou todo um movimento para que Roberto Carlos gravasse aquela canção - pouco conhecida até então e basicamente só por quem era de Cachoeiro.Em junho de 1967, ao participar da festa de aniversário da cidade, o próprio Raul Sampaio se empenhou na verdadeira campanha de convencer o cantor a gravar a canção. Na ocasião, Sampaio entregou até uma fita com Meu Cachoeiro gravada para Roberto ouvi-la. Foi só a primeira de uma série de muitas que Raul entregou a Roberto. A campanha ganhou apoio de: Emilinha Borba, Erasmo Carlos (colega de Raul na gravadora RGE), a mãe de Roberto, dona Laura, o seu produtor, Evandro Ribeiro, e o chefe de divulgação da CBS, Othon Russo.
A relutância de Roberto em gravá-la se dava porque o cantor pensava em compor, ele próprio, um tema para sua cidade natal. Mas no final de 1970, convencido de que tudo que queria dizer sobre Cachoeiro, já estava na canção de Raul, o cantor finalmente decidiu gravá-la. Não sem pedir a Raul que trocasse o verso "O meu bom jenipapeiro/dando sombra no terreiro..". Para o já supersticioso Roberto Carlos a palavra "terreiro" remetia a algo ruim, então ele sugeriu trocar de fruta: jenipapo para flamboyant "Meu flamboyant na primavera/que bonito que ele era/dando sombra no quintal...". Um novo impasse se deu, pois Raul não queria abrir mão, já que a canção era há oito anos conhecida dos cachoeirenses com esse verso. Daí foi a vez de Evandro Ribeiro, Erasmo Carlos & Cia. convencerem Raul a liberar a mudança - o que finalmente foi aceito e realmente ficou poeticamente e metricamente melhor na canção. Originalmente, Meu Cachoeiro era uma toada com melodias em notas baixas, mas Roberto desejava gravá-la em notas altas subindo a melodia. O maestro Alexandre Gnatalli foi o encarregado de fazer a mudança. No dia 05 de novembro de 1970, na última sessão de estúdio para a gravação daquele seu 10º álbum de carreira - já reintitulada Meu Pequeno Cachoeiro - o hino oficial da cidade foi registrado pela (já àquela altura) maior estrela da cidade do sul capixaba, tornando-se um sucesso. De restrita ao interesse e conhecimento de seus moradores e a outros cachoeirenses radicados em outras cidades brasileiras, ela se tornou conhecida nacionalmente através de Roberto Carlos.
O Astronauta traz uma temática atípica no repertório do cantor até ali, bem como em toda sua carreira. Foi inspirada claramente num dos maiores acontecimentos da história: a primeira ida do homem à lua em julho de 1969. Claro, Roberto trouxe o tema para o seu universo romântico: o eu lírico desiludido com as guerras e com a busca em vão de um amor verdadeiro, deseja viajar pelo espaço sideral a fim de esquecer suas frustrações. Quer dizer, é mais um tema que trata de crise existencial. Se no disco anterior, o cenário dessa fuga da realidade eram as curvas da velha estrada de Santos a toda velocidade, agora era o desejo de viajar pelo espaço que movia o eu lírico na busca desse isolamento.Essa alusão a As Curvas da Estrada de Santos não é desproposital já que, apesar de creditada a Edson Ribeiro e Helena dos Santos, esta não tem sequer uma palavra de contribuição na letra. A faixa é de autoria do próprio Roberto Carlos em colaboração com Edson Ribeiro. É que, igual ao ano anterior, Roberto não gostou de nenhuma das composições apresentadas a ele por Helena. Daí, para mantê-la como seu talismã e ajudá-la, creditou O Astronauta a ela e Edson Ribeiro. 
Lado 2 do vinil
Fonte: D Vinil
Se Eu Pudesse Voltar No Tempo é uma das minhas preferidas desse disco, tanto a letra quanto o arranjo luxuoso. É a que tem o baixo mais swingadamente pesado e pulsante das 12 faixas. Quem não gostaria de voltar no tempo e corrigir erros e injustiças cometidos no passado? É de autoria de Pedro Paulo e Luiz Carlos Ismail, este último amigo do cantor e até hoje corista de sua banda.
O carioca Demétrius foi um dos pioneiros do rock no Brasil. De sua autoria era a quase folk Preciso Lhe Encontrar com uma letra de um quase desesperado eu poético que tenta reencontrar a mulher a qual deixou e se arrependeu. Muito boa! 
Minha Senhora, segundo me revelou o produtor e compositor, Mauro Motta (in memorian), é um baião - quer dizer, o rei da MPB dando um leve mergulho na seara de outro rei, Luiz Gonzaga. A letra brinca, de certa forma, com o fato de a primeira mulher de Roberto Carlos ter sido 4 meses mais velha que ele "Juro que não sou culpado/de nascer pouco depois/mas recuperar o tempo/é problema de nós dois...".
Pra Você, de Silvio Cesar, não era uma canção inédita. Seu autor a havia lançado em 1965 num arranjo de toada. Roberto resolveu gravá-la mesmo assim, mas com um arranjo orquestral destacando o uso de violinos, trompete e trombone e, claro, um contrabaixo marcante com pulsação soul.
120...150...200 Km Por Hora beira o psicodelismo tão característico daquela transição de década de 1960 para a de 70. Uns querem ver numa possível entrelinha um eu lírico dirigindo a toda velocidade rumo ao suicídio. Não para Roberto Carlos, né. Trata-se de mais uma da safra de suas canções cujo mote é a velocidade. Há nela uma profunda crise existencial sim, mas provocada por um drama sentimental experimentado pelo personagem poético da canção. Esta faixa foi lançada antecipadamente em maio de 1970 no LP As 14 Mais, Volume XXIV, compilação da CBS que apresentava os novos lançamentos da Companhia.
Maior Que o Meu Amor fecha o álbum. Para este autor é a mais fraca do disco e a mais fraca composta por Renato Barros gravada por Roberto Carlos. Mais fraca em relação às demais, não exatamente que ela seja ruim. Não à toa este disco está no Top 20 deste blog (e da página no Facebook) ocupando o 20º lugar entre os melhores álbuns de Roberto Carlos em toda a sua carreira. Não há nele nenhuma letra exuberante daquelas que viriam mais tarde, mas a sua sonoridade soul garante essa posição. Ele foi gravado em 4 canais no estúdio CBS, no Rio, entre 28 de maio, 27 de outubro e 3, 4 e 5 de novembro de 1970.
Esse seu 10º álbum vendeu 520 mil cópias e encerrou - pelo menos conceitualmente - a sua fase soul, ainda que até o álbum de 1976, aqui e acolá, ainda podia-se ouvir resquícios de black music em seu trabalho. 
FONTES:
Wikipédia
Roberto Carlos em Detalhes - Paulo Cesar de Araújo - Editora Planeta/2006
Na Sintonia da Emoção - A História de Mauro Motta (Canal Disco Voador/You Tube)
Depoimento pessoal de Mauro Motta e este autor    

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

“ROBERTO CARLOS”/1987 – UM DISCO CAPRICHADO, MAL COMPREENDIDO E INJUSTAMENTE PICHADO PELA CRÍTICA (REEDITADO)

OS CABELOS DO ROBERTO (DA INFÂNCIA À MELHOR IDADE)

O QUANTO AS CANÇÕES DE RC REVELAM COMO ELE E SUAS MULHERES ERAM NOS SEUS 3 'CASAMENTOS'? (II PARTE- MYRIAN RIOS)