O QUANTO AS CANÇÕES DE RC REVELAM COMO ELE E SUAS MULHERES ERAM NOS SEUS 3 'CASAMENTOS'? (I PARTE- NICE)

 

Roberto e as 3 mulheres de sua vida

Já é sabido de longa data que Roberto Carlos só canta o que sente, o que pensa e o que acredita. Por essa razão, o cantor já deixou de gravar grandes canções de outros compositores da música brasileira que compuseram-nas pensando especialmente nele. Essa transparência e coerência com sua verdade faz dele possivelmente o cantor mais autêntico e autobiográfico da história da nossa música. Mas, e sua vida sentimental? Existe mesmo uma relação direta e linear das letras de suas canções com o começo ou o término de seus relacionamentos? O que é apenas liberdade poética e o que é fato nessas canções? Vamos focar aqui exclusivamente nos 3 relacionamentos mais douradouros de sua vida: os 2 casamentos de fato (com Nice e Maria Rita) e o relacionamento de 10 anos com Myrian Rios. Através dessa nova dissecação de parte da obra do cantor, nosso objetivo é concluir quem é e como foi Roberto e suas mulheres nesses relacionamentos. Quem possivelmente errou mais para o fim - à exceção do casamento com Maria Rita? As entrelinhas das canções revelam algo? É o que veremos a seguir.
Cleonice Rossi Braga (1966-1978)
Roberto Carlos conheceu, na época, ainda Cleonice Rossi Martinelli, em 1966, num evento social com crianças do Orfanato São Judas Tadeu. Nice estava à fente de um trabalho filantrópico desenvolvido pela LBV (Legião da Boa Vontade) e solicitou ao pai, o jornalista Edmundo Rossi, para que facilitasse sua entrada com as crianças no programa Jovem Guarda, já que Edmundo conhecia Roberto desde que escrevera um artigo sobre o programa no Jornal Notícias Populares. Seria um rápido contato de Nice e das crianças com o "Rei da Juventude", se Roberto não se encantasse pela filha da classe média alta paulistana, uma mulher muito bonita e atraente. Em pouco tempo, estavam namorando, incialmente às escondidas da imprensa e do público, pois existia o mito que um ídolo jovem não poderia ser casado. No final do ano, Roberto lançou seu primeiro LP às vésperas do Natal, tradição que se manteve ininterrupta por 32 anos. Não há naquele seu 6º long-play nenhuma canção explicitamente dedicada à namorada. A mais próxima disso é Eu Estou Apaixonado por Você, especialmente nos primeiros versos que revelam que apesar da vida extremamente agitada, com vários compromissos profissionais, Roberto acabou se apaixonando subitamente. 
No entanto, é no disco do ano seguinte que o cantor - ainda compondo sozinho, devido a um desentendimento com Erasmo Carlos - comporia para Nice Como é Grande o Meu Amor Por Você, um dos maiores clássicos da música popular brasileira em todos os tempos. Naquele disco, Roberto Carlos em Ritmo de Aventura, o cantor já esboçava discretamente a sua verve autobiográfica. Em Por Isso Eu Corro Demais, a letra revela a indisponibilidade de tempo e a necessidade de pisar fundo no acelerador para estar com a amada. A outra canção daquele disco cujas entrelinhas revelam como Roberto encara um relacionamento é De Que Vale Tudo Isso. Romântico incurável, RC é do tipo que vive intensamente um relacionamento e quer ter, sempre que possível, a namorada por perto. Como se sabe, ao longo daquele ano de 1967, RC se dividiu entre shows, o programa dominical na TV Record, as gravações do LP homônimo e do filme, cujas filmagens ocorreram também nos EUA. Não por acaso, a cena do filme em que Roberto canta essa canção é uma em que ele está sozinho dirigindo por Nova York e lamentando nas entrelinhas da canção a ausência de Nice que ficara no Brasil. Essa situação se repetiu muitas vezes quando o cantor teve que viajar - especialmente para fora do país - para cumprir sua agitada agenda. E num mundo ainda desconectado tecnologicamente, só restavam as ligações internacionais por telefone, na época, caríssimas.Ele expressa isso em outro clássico de seu repertório: Eu Te Amo, Te Amo, Te Amo, registrada no LP O Inimitável, de 1968. Em maio deste ano, Roberto se casou com Nice em Santa Cruz de La Sierra, Bolívia, pois ela era apenas desquitada de seu primeiro marido e ainda não existia o divórcio no Brasil. 
Até ali, Roberto e Nice viveram o bom do relacionamento: muita paixão, muita saudade e muita ansiedade de se verem e poderem estar juntos. Tanto amor culminou na gravidez de Nice em março de 1968 e no nascimento de Dudu Braga em 14 de dezembro daquele ano. Infelizmente, as brigas depois de casados passaram a existir. Pelo que depreendemos de relatos de contemporâneos do casal, Nice era muito ciúmenta e possessiva e Roberto, por sua vez, além do assédio natural que sofria de seu público feminino, devia contribuir com seu donjuanismo inato. A primeira canção que retrata essas desavenças conjugais é exatamente do disco lançado em 1969. Tratava-se de Sua Estupidez, uma de suas grandes canções. Em linhas gerais, a letra revela um Roberto que se queixa do que considerava "estupidez" de Nice em dar ouvidos a boatos maldosos, que depreendemos, davam conta de supostos envolvimentos extraconjugais do cantor. Veio a década de 1970 e a carreira de Roberto Carlos só decolava. Veio mais um fruto do casal em 1971, Luciana Braga, justamente no ano em que o artista adentrava definitivamente em sua fase romântica.Todavia, o maior astro do cancioneiro nacional vivia envolto aos altos e baixos em seu casamento. Neste interim, é significativo o relato do produtor e compositor maranhense José de Ribamar Cury Heluy, autor da música Aparências, gravada com extremo sucesso por Márcio Greyck, em 1981. Cury migrara para o Rio de Janeiro deixando São Luís no começo dos anos 1960. Na Cidade Maravilhosa, além de funcionário público do Banco Central do Brasil, ele se enturmou com artistas como Raul Seixas, Jerry Adriani, Odair José e outros e passou a recebê-los em sua casa, em Ipanema, tornando-se produtor musical.
Em março de 1973, Cury estava produzindo um compacto simples que seria lançado por Gérson King Combo, irmão do compositor Getulio Côrtes de quem RC gravou várias canções, especialmente durante o período da Jovem Guarda. Combo havia pedido uma composição a Roberto e encarregou Cury de escolher a que ele incluíria em seu disquinho. Durante a permanência deste na mansão de Roberto e Nice, no Morumbi, em São Paulo, Cury foi levado pelo rei a dar uma volta pela cidade, já que morava no Rio. Não é claro no registro publicado desse fato em O Redemoinho*, se Cury viu algum estremecimento entre Roberto e Nice em sua casa ou se durante o passeio no carro do cantor, este o relatou algo. Certeza é que depois de escolher Quando a Cidade Acorda para faixa de trabalho do compacto, as ideias de uma música feita a partir da experiência conjugal de Roberto e para Roberto foram surgindo em sua cabeça. Depois de concluída, levou anos tentando mostrá-la ao cantor. Chegou a contar com um aliado de peso, o  também compositor e divulgador da então CBS, Othon Russo. Este incentivou Roberto a gravá-la dizendo "grava, essa é boa". No entanto, como se sabe, Roberto não a gravou. E após oferecer "Aparências" a vários artistas, ela caiu nas mãos de um colega da mesma gavadora de RC, o mineiro Márcio Greyck. Lançada num compacto em 1981, ela estourou no Brasil e foi apresentada no Clip do Fantástico como "a música que Roberto Carlos não gravou". Quando viu o programa, Roberto se deu conta do que tinha desperdiçado e indagou por que a gravadora não o informou a respeito da canção, mesmo Othon Russo tendo-lhe chamado à atenção para a balada que fala de um relacionamento de aparências prestes a acabar de vez.
Como dissemos, durante os 12 anos de seu relacionamento com Nice, Roberto possivelmente viveu sua fase mais criativa e lançou seus melhores discos. Podemos dizer que nesse período, o cantor projetava seus discos pensando no gosto do público - e não para desabafar as suas dores pessoais. Ele ainda não se voltava exageradamente para as suas agruras sentimentais fazendo de seus lançamentos uma espécie de diário fonográfico. Já era autobiográfico, mas falava de si e de suas vivências discretamente. Talvez a canção mais autobiográfica que tenha lançado no momento mais aguçado de crise em seu primeiro casamento tenha sido Sinto Muito Minha Amiga, do grande álbum de 1977. Justamente naquele ano, o divórcio foi liberado no Brasil e dados os constantes boatos na imprensa da separação de Roberto e Nice, esta sugeriu que eles se casassem legalmente aqui. Hesitante, Roberto pediu um tempo até possivelmente os dois pararem mais de brigar. Considerando aquilo um 'desaforo brutal', segundo um depoimento à jornalista Cynira Arruda, Nice chutou o pau da barraca e o relacionamento terminou em março de 1978. Roberto decidiu sair de casa, deixando a mansão do Morumbi para a ex-mulher e os filhos retornando ao Rio, onde inicialmente instalou-se no Copacabana Palace. Mesmo com esse rompimento, o álbum de 78 de RC reflete bem discretamente sua vida pessoal. Quem sabe a faixa A Primeira Vez retrate algo do fim de seu casamento com a mãe de seus filhos? Porém, vemos muita liberdade poética inserida e não propriamente um relato musicado. Nesse sentido, o que é fato mesmo é que desde o ano anterior, Roberto teve a ideia de compor um tema pensando nesse término. Era a brilhante Fera Ferida, concluída somente 5 anos depois e que reforça, inclusive, nos primeiros versos "Acabei com tudo, escapei com vida/tive as roupas e os sonhos/rasgados na minha saída..." que foi realmente o cantor quem tomou a iniciativa de romper o relacionamento e sair de casa. Sem dúvida, antes do lançamento de "Fera Ferida", em 1982, a canção que mais retrata o cotidiano do casamento de Roberto Carlos e Nice foi Costumes, faixa do excelente álbum de 1979. O eu lírico descreve na canção a falta que sente até de "um bom dia na cama", "a conversa informal", "o beijo, depois o café, o cigarro e o jornal". Diz ainda "Não me esqueço das tardes alegres/com nossos amigos/um final de programa, fim de madrugada/o aconchego na cama, a luz apagada/essas coisas só mesmo com o tempo/se pode esquecer...".
Percebe-se claramente aí que embora tendo tido a iniciativa de sair de casa, Roberto sofreu com a separação de Nice. Só não sofreu mais porque em 1978 iniciou um novo relacionamento com uma atriz novata que conhecera, por acaso, um ano antes num voo. Era Myrian Rios. Mas essa abordagem faremos na II Parte deste artigo.
RC e Nice na Manchete de janeiro/1968
Crédito da Foto de Capa
Portal Caiçara
Capa da Revista Manchete
Facebook, Curiosidades, Roberto Carlos e Nice
Fontes Pesquisadas
Livro "Roberto Carlos em Detalhes" (Paulo Cesar de Araújo, Editora Planeta, 2006)
Canal "Fabiano Cavalcante" (You Tube) - "Aparências" - a música que Roberto Carlos não gravou
*Em texto escrito por Félix Alberto de Lima, em 29/07/2009, usado por Fabiano em seu canal   

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