O AMOR AINDA ERA REALMENTE A MODA? - O 25º ÁLBUM DE ROBERTO CARLOS (1983)

 

Capa do álbum de 1983

Não é incomum os ouvintes mais seletivos de Roberto Carlos opinarem que o "melhor" de sua carreira tenha se dado até 1980 ou, no máximo, até 1982. Sabemos que opinião, em especial sobre música, é algo bastante subjetivo e cada um emite a sua baseada, em geral, em conceitos e preconceitos gerados por suas satisfações ou frustrações. Como fã de Roberto Carlos, mas também um analista crítico de sua grande obra, não poucas vezes fico situado numa linha muito tênue entre a emoção e a razão. 
Naquele início de década de 1980, o Brasil passava por uma gradual abertura política e um clamor nascido nas elites intelectuais pedia a redemocratização. Contextualmente, a problematização sobre se Roberto Carlos ainda "estava na moda" ou "não" - quer dizer, ainda era relevante artísticamente - passa por algumas questões que não devem ser ignoradas:
1) Ele ainda era, passados 18 anos, não só o maior vendedor anual de discos como o maior astro da música brasileira - nesse ano, inclusive, pôs em execução o "Projeto Emoções", o mais ousado, o de estrutura jamais vista até então e que lotou estádios e ginásios de Norte a Sul e de Leste a Oeste do Brasil.
2) O cantor sempre se declarou apolítico justificando entender muito pouco do assunto para falar dele - se de fato fruto de uma ignorância ou apenas uma fuga para se manter neutro e não desagradar nem gregos nem troianos, fato é que Roberto nunca se posicionou politicamente - no máximo, deu o seu apoio a amigos candidatos.
3) Se nos anos 1960 fora cobrado por uma questão político-ideológica, nos 70's por uma questão estética-social, nos 80's passou a ser cobrado por uma renovação em seu trabalho.
A grande maioria da crítica dizia que Roberto envelhecera artísticamente e já não trazia nada de novo em seus novos discos. Suas músicas eram as mesmas a cada ano: o desamor, a fé religiosa, a fraternidade universal...
É desse último questionamento, a renovação, que gostaria de puxar o novelo sobre seu álbum de 1983. É neste ano que o chamado BRock ou Rock Brasil começa a dar as cartas no mercado nacional. As portas haviam sido abertas pela Blitz que no ano anterior vendera 100 mil cópias em 3 meses com a sua Você Não Soube Me Amar. Até junho de 1983, segundo o Jornal do Brasil, o compacto que continha o hit havia alcançado mais de 700 mil compradores e a canção fora a 14ª mais executada nas rádios. Enquanto isso, mesmo tendo vendido no total, 2 milhões de cópias, o carro-chefe do seu álbum de 1982, Fera Ferida, ocupou apenas o 38º lugar. O que isso significa? Significa em primeiro lugar que a parcela majoritária dos ouvintes de rádio, o público jovem, já não se identificava com a estética musical romântica do cantor. Em segundo lugar, a popularização crescente das rádios FM, principalmente a partir da segunda metade da década de 1970, concentrou a audição de um nicho jovem mais sedento de novidades e de uma estética musical de vanguarda. Em terceiro, como dito mais acima, a elite cultural do país se concentrara no clamor em torno da abertura política, o que a priori, teve como resultado a anistia decretada em 1980 pelo presidente João Figueiredo. Não à toa, os anos 70 se encerram no Brasil com O Bêbado e a Equilibrista, um dos sambas da anistia, no absoluto 1º lugar nas rádios brasileiras, enquanto Na Paz do Seu Sorriso, de Roberto Carlos, ocupou apenas o 25º lugar. É imprescindível lembrarmos que o álbum que trazia essa canção vendera 2 milhões e 400 mil cópias batendo todos os recordes no país estabelecidos pelo próprio Roberto Carlos.
No ano seguinte, a década de 1980 se iniciava com o cantor mais popular do Brasil ocupando uma posição bem discreta, o 19º lugar com Amante à Moda Antiga. Nem mesmo a repercussão da hoje classissíma Emoções, reconduziu o cantor ao 1º lugar das paradas nas rádios brasileiras - neste caso, ela foi a 4ª mais executada em 1981.Essa conjuntura das preferências do público no meio radiofônico nos dizem que Roberto Carlos perdera realmente o compasso com o público jovem - a fatia majoritária dos ouvintes, sobretudo de FM, então. Uma nova geração se constiuía não mais pela audição do rádio AM - no qual predominavam os artistas mais populares e ouvidos por um público mais maduro, como o próprio Roberto Carlos. A chamada "Geração 80" se formou sob o vanguardismo e a estética da programação jovem do rádio FM. Este captou o que de tendência jovem havia no pop internacional e os artistas brasileiros que estavam incorporando essas novidade estéticas ao seu som. Soma-se a isso também o fato da TV, segundo dados do IBGE, já atingir a 55% das residencias brasileiras se tornando cada vez mais um veículo de massa. Na época, com uma audiência absoluta e massacrante, a TV Globo contribuía decisivamente com o que se tornava sucesso no rádio. Na parada musical de 1980, por exemplo, a então Baby Consuelo teve a sua Menino do Rio - abertura da novela das oito "Água Viva" ocupando o 5º lugar e o ainda novato Djavan teve a sua Meu Bem Querer - trilha da novela "Coração Alado" - em 9º lugar.
Em 1981, Rita Lee com "Baila Comigo" (tema de abertura da novela homônima), ocupou o 2º lugar das paradas e Clarear, do ainda incipiente Roupa Nova, foi a 7ª canção mais executada como trilha da novela das sete "Jogo da Vida". Fora a influência inconteste de suas novelas, a emissora carioca mantinha toda uma atenção especial voltada para a música em sua grade de programação. Havia a faixa especial "Sexta Super", que além de focar em teledramaturgia e humorísticos, separava periodicamente um programa voltado a um grande nome da música brasileira. Dessa forma, artistas já consagrados da chamada MPB ainda se faziam repercutir entre os jovens: além, é claro, da TV dos Marinho ter contribuído com a renovação desse gênero ao levar ao ar entre 1980 e 1982 - e 1985 - os seus festivais que monopolizavam a atenção. O próprio "Geração 80" foi um programa voltado para a juventude que pôs na vitrine novos artistas que estavam despontando. 
Dessa forma, havia uma efervescência cultural que evoluiu naturalmente de uma aspiração de renovação com a chegada da nova década. Pode-se concluir, então, que não houve exatamente uma rejeição a Roberto Carlos, mas uma atenção natural da juventude em torno de uma linguagem musical mais próxima de suas aspirações. O fenômeno Roberto Carlos continuava ali, intacto, consolidado como o mais emblemático artista da nossa música. Mas, e seu 25º álbum de estúdio, lançado dezesseis dias antes do Natal de 1983?
Na minha avaliação, trata-se de um disco que já apresenta certa irregularidade e por isso o classifico pertencendo a uma espécie de 2° divisão dos álbuns de Roberto Carlos. Isso não quer dizer, de maneira nenhuma que se trata de um disco ruim. No entanto, ele apresenta canções como Me Disse Adeus e A Partir Desse Instante que ao meu ver, representam uma queda significativa de inspiração das duplas Eduardo Lages/Paulo Sérgio Valle e Maurício Duboc/Carlos Colla, respectivamente. Parece que a demanda de um elepê por ano, sempre com a exigência de compor parte de mais um lançamento do aguardado disco de fim de ano do cantor estava surtindo seus efeitos colaterais.
Me Disse Adeus fala do recorrente tema do desamor na obra de Roberto Carlos. Comparada com outras da dupla Lages/Valle é simplória, apesar da interpretação sensível de Roberto não permitir transformá-la numa tragédia. Já A Partir Desse Instante, um pouquinho melhor, trata do eu lírico que luta contra seus impulsos sentimentais em superar uma separação. Duboc, geralmente o autor da parte musical (ou mesmo seu arranjador, All Capps) mutilou a canção, em minha opinião, ao não estendê-la um pouco mais repetindo o que seria o seu refrão. Quando a canção acena uma possibilidade de crescimento, ela acaba bruscamente.
Mas o álbum em questão trazia faixas que ainda refletiam um resquício de inspiração da dupla Roberto e Erasmo. Em nossa opinião, são elas principalmente Estou Aqui, Você Não Sabe e Perdoa. Ainda no início de sua "fase apostólica" na qual suas idas à igreja Nossa Senhora do Brasil, perto de sua casa, começavam a ser mais constantes, Roberto mais uma vez retratava musicalmente esse momento de reaproximação da Igreja Católica com a gospel Estou Aqui. A letra parte da perspectiva de alguém que na sua angústia e aflição procura em Cristo a solução. É uma letra direta, sem rodeios, sem intelectualidade (como praxe da maioria das composições de Roberto), mas abrilhantada por um arranjo coerente do maestro Jimmy Wisner para uma temática de reverência e piedade cristãs. 
Você Não Sabe é daquelas cuja safra fazia relembrar as melhores fases do cantor. Sensível, ela emula o eu lírico que aspira à correspondência de seu amor pela pessoa a quem ama. Reconhecida como uma das grandes do repertório de Roberto Carlos, seria regravada por Maria Bethânia dez anos depois em seu álbum As Canções Que Você Fez Pra Mim no qual prestou um tributo à obra de Roberto e Erasmo.
Perdoa é um fox maravilhoso de arranjo competente do maestro Edson Frederico. Com seu clima romântico, sugere a reconciliação de um casal num fim de noite após aquela briguinha passageira. No contexto atual do politicamente correto, o trecho que diz "E de repente, me descontrolei e gritei/Eu sei, te acostumei de um jeito tão bonito/que você não suporta quando eu grito/mas é verdade tudo que eu falei..." , seria, no mínimo, classificado como 'machista' e quiçá um arroubo de 'violência psicológica'.
Mas, se dissemos que trata-se de um disco que em nossa opinião é irregular, quais são as canções medianas? Sim, elas compõem a maioria das 10 faixas. E tudo começa por seu carro-chefe, a balada sexual O Côncavo e o Convexo. Nada absolutamente contra o assunto sexo que, faça-se justiça, Roberto desde Proposta tratou com bastante discrição e usando até metáforas que deram um tom poético em algumas delas. É também o caso de O Côncavo e o Convexo com sua alusão, embora não muito precisa, à forma geométrica de objetos respectivamente com reentrância (referência ao sexo feminino) e sem reentrância (ou curvatura para fora representando o sexo masculino). Minha relativa objeção à canção é os seus econômicos 3 minutos e 7 segundos de duração, o que denota ter sido feita sob medida pra tocar no rádio. Isso ao meu ver, mutilou a canção cujo arranjo foi feito pelo maestro americano Charlie Calello.
Bem mais consistente, No Mesmo Verão talvez fosse a melhor escolha para carro-chefe, mas foi infelizmente relegada à impercepção popular ficando restrita ao ouvinte do disco em casa. Com arranjo dividido entre Charlie Calello e Torrie Zito, essa também balada sexual traz uma latinidade bem pertinente à proposta sensual da canção com uso de instrumentos de percussão como o bongô. Mas seus 4 minutos e 36 segundos talvez desencorajaram seu trabalho nas rádios.
Neste ínterim, cumpre-nos fazer uma comparação a fim de responder à pergunta que intitula este artigo: o amor ainda era realmente a moda? Usando uma entrelinha da questão: o romantismo característico das canções de Roberto Carlos ainda estavam na moda? Naquele mesmo ano, o inglês radicado Ritchie explodiu com seu álbum "Voo de Coração" o qual trazia dentre pelo menos 5 grandes hits a "latínica" Pelo Interfone, segundo o próprio, inspirada na sonoridade caribenha das canções de Harry Balafonte, um artista nascido no Harlem, em Nova York, mas de ascendência jamaicana.
Enquanto Ritchie evoca o aparelho de comunicação usado principalmente em edifícios residenciais e em voga naquele momento, Roberto evoca o amor erotizado dentro do casamento "Chego cansado/você se aproxima/me beija, me abraça/me assanha, me anima/você é tudo pra mim...".
Naturalmente, a abordagem mais vanguardista do inglês usando um instrumento de comunicação que era então sinônimo de modernidade e num andamento mais sincopado lembrando o calypso, soou bem mais jovial para a geração oitentista. Àquela altura, Roberto Carlos não era mais uma novidade degustável para a juventude e sim um artista já quarentão consolidado para um público mais adulto.
A faixa de abertura O Amor é a Moda - que inspirou a abordagem temática deste artigo - era uma variante do charleston que segundo o saudoso Mauro Motta me confidenciou, os americanos chamavam de shuffle. Era uma tentativa realmente interessante de o cantor trazer algo de pelo menos diferente em suas novas canções. Com arranjo de Charlie Calello e Jimmy Wisner, a canção chegou a tocar no rádio, mas não o suficiente para se tornar um sucesso incontestável. É a típica nem lá nem cá. É sintomático, porém, que a autenticidade de Roberto Carlos se faz sentir nos versos "Se o amor está fora de moda/eu estou um tanto ou quanto antiquado/por amar e sentir certas coisas/o que, às vezes, se diz que é quadrado...". Quer dizer, sem se importar com as exigências de boa parte da crítica de uma renovação, Roberto reiterava seu romantismo nato assumindo o risco, inclusive, de ser tachado de 'quadrado'. Mais à frente, ele assume explicitamente algo que hoje seria visto como um 'comportamento tóxico' "O ciúme me causa problemas/eu, às vezes, não posso conter/reações de um machismo ridículo/que nem sempre consigo esconder..." 
Recordações e Mais Nada é daquelas que consideraríamos mediana para cima. Trata-se de uma tentativa de parceria inédita (e única) de Roberto Carlos e seu antigo colaborador em composições pontuais da década anterior, Fred Jorge. Em nossa opinião, o que há de interessante nessa canção é o sentimentalismo que dela aflora com a temática do romance que se desgastou com o passar do tempo terminando em recordações e saudade para o eu lírico.
Preciso de Você (Mauro Motta/Eduardo Ribeiro) era também, em nossa avaliação, mediana, não sendo extraordinária nem ruim. Essa faixa, por sinal, marcou a derradeira parceria entre o músico e compositor Mauro Motta e o ex-gerente geral da CBS brasileira, Evandro Ribeiro (o qual se ocultava com o prenome Eduardo). Na época, a filial já era presidida pelo espanhol Thomaz Muñoz e gerida artísticamente por Cláudio Condé. Sentindo o tempo do cansaço, Ribeiro decidiu após produzir esse álbum de Roberto Carlos, retirar-se do universo fonográfico e por consequência encerrar a parceria com o seu assistente de produção, Mauro Motta. 
Contracapa
Por fim, nossa conclusão da pergunta retórica do título deste artigo tem duas respostas relativas: sim, Roberto Carlos ainda era um artista relevante, apesar de seus novos discos já apontarem certo esgotamento criativo. Seu público, porém, o mantinha no topo e este disco - embora reze a lenda que o cantor Ritchie foi o maior vendedor do ano com o seu "Voo de Coração" - foi de fato o mais vendido com cerca de 2 milhões de compradores. Contudo, é também verdade que o mercado iniciava um processo natural de renovação com os artistas solo e bandas do pop-rock nacional despontando e monopolizando a atenção da juventude, faixa de público que realmente não se interessava pelo universo romântico do cantor.
DATA DE LANÇAMENTO: 9 de dezembro de 1983
PRODUÇÃO: Evandro Ribeiro
Gravado entre 21 de julho e 7 de setembro de 1983 nos estúdios United Western e A & M (Los Angeles, USA/as bases), Eras, Hit Factory e RCA (New York, USA/voz) e Sigla (Rio de Janeiro, Brasil)
Técnicos de Gravação: Tim Geelan, Eduardo de Oliveira e Célio Martins
Mixagem: Mauro Motta e Eduardo de Oliveira
Corte: Manoel Magalhães
Auxiliares Técnicos: Jackson, Paulino, Leco, Celinho e Dorel
Produção de Capa: Sérgio Lopes
Fotos: Luis Garrido
Direção de Arte: Geraldo Alves Pinto
POSIÇÃO NO RANKING DA PÁGINA/BLOG: 21º lugar
VENDAGEM: 1,5 milhão de cópias (1ª tiragem); 1,8 milhão (2ª tiragem); 2 milhões de cópias (tiragem final)
FAIXAS
LADO A
1- O Amor é a Moda (Roberto Carlos-Erasmo Carlos) - Shuffle
Gravada em 30 de outubro de 1º de novembro de 1983
Arranjo: Charlie Calello e Jimmy Wisner
2- Recordações e Mais Nada (Roberto Carlos-Fred Jorge) - Balada romântica
Gravada em 28 de setembro e 30 de outubro de 1983
Arranjo: Eduardo Lages
3- Estou Aqui (Roberto Carlos-Erasmo Carlos) - Gospel
Gravada em 17 de outubro de 1983
Arranjo: Jimmy Wisner
4- Preciso de Você (Mauro Motta-Eduardo Ribeiro) - Balada romântica
Gravada em 30 de outubro de 1983
Arranjo: Artie Butler
5- Me Disse Adeus (Eduardo Lages-Paulo Sérgio Valle) - Balada romântica
Gravada em 27 de setembro de 30 de outubro de 1983
Arranjo: Eduardo Lages
LADO B
1- Você Não Sabe (Roberto Carlos-Erasmo Carlos) - Balada romântica
Gravada em 16 de setembro, 30 de outubro e 3 de novembro de 1983
Arranjo: Artie Butler
2- O Côncavo e o Convexo (Roberto Carlos-Erasmo Carlos) - Balada sexual
Gravada em 20 e 21 de julho e 30 de outubro e 1º de novembro de 1983
Arranjo: Charlie Calello
3- No Mesmo Verão (Roberto Carlos-Erasmo Carlos) - Balada sexual
Gravada em julho, 11 de agosto e 7 de setembro de 1983
Arranjo: Charlie Calello e Torrie Zito
4- Perdoa (Roberto Carlos-Erasmo Carlos) - Fox
Gravada em 30 de outubro e 1º de novembro de 1983
Arranjo: Edson Frederico
5- A Partir Desse Instante (Maurício Duboc-Carlos Colla) - Balada romântica
Gravada em 21 de julho e 7 de setembro de 1983
Arranjo: Al Capps  

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